O gosto do público pelo suspense policial não é recente. Há décadas são feitos filmes que narram histórias de todo tipo de perseguição a criminosos, tema que inclusive segue ganhando inúmeros desdobramentos nas séries de TV. Tanto se fez que o formato desse tipo de narrativa, apesar de instigante, inevitavelmente se tornou repetitivo: a corrida pela justiça contada do ponto de vista da polícia, geralmente caracterizada por uma dupla de detetives, contra algum tipo de assassino inescrupuloso.

Culpa, primeiro longa-metragem do sueco Gustav Möller, consegue surpreendentemente romper com essa lógica, a começar pela ambientação única do filme inteiro – uma pequena delegacia de polícia onde são atendidas chamadas de emergência na Dinamarca. O local, que beira assemelhar-se a um porão, aprisiona o entediado policial Asger Holm (Jakob Cergren), designado à repetitiva função de telefonista enquanto aguarda julgamento por uma suposta indisciplina que cometeu em serviço. A monotonia é interrompida, no entanto, quando atende à chamada de Iben (voz de Jessica Dinnage), uma mãe supostamente sequestrada pelo ex-marido que telefona fingindo que conversa com a filha.

Sem muito exceder a pequena área que ocupa seu computador, Asger procura desvendar a situação de Iben, privado de eventuais perseguições policiais e abordagens mais práticas. O roteiro, escrito pelo diretor em parceria com Emil Nygaard Albertsen, utiliza-se desse contexto com grande sabedoria: a ação do filme é guiada quase inteiramente pelo som dos diálogos, que, apesar de frequentes, não se antecipam em revelar informações a Asger e ao espectador – pelo contrário, a tensão tende a crescer diante de um meio de comunicação repleto de ruídos. Em uma história sem imagens ou explicações completas, a imaginação acaba por tomar o lugar dos olhos, o que se mostra um grande erro por parte do protagonista.

Os planos, extremamente fechados, mostram continuamente a imagem do rosto de Asger, transparecendo uma série de facetas de sua personalidade através da forma como encara seu trabalho. Inundado pela vontade de ajudar a vítima com o máximo de eficiência, o policial equivoca-se ao tomar atitudes autoritárias, passando por cima de todos os colegas, o que acaba por agravar tudo. Esse comportamento é semelhante ao que o levou a ser julgado e afastado de seu ofício original – um perfil policial bastante comum, no qual se supõe que a imperatividade irracional será justificada por um desfecho heroico do crime.

Culpa, apesar do título em português, não é tanto sobre o tal sentimento, mas sim sobre os diferentes possíveis culpados pela situação, como indica o título original Den skyldige (o culpado): o ex-marido de Iben, ela mesma, Asger ou o burocrático sistema.

 

*Filme visto na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Exibido nos festivais de Sundance e Roterdã, Culpa é o pré-indicado da Dinamarca ao Oscar 2019