Além da aproximação contraintuitiva entre curtas de Zózimo Bulbul e Torquato Neto, a sessão de curtas da Mostra Histórica da 13ª CineOP trouxe outras surpresas. A principal, pra mim, começou antes da sessão: Maria Helena, irmã de Bulbul, assim como Biza Vianna, viúva do cineasta, planejavam suas falas de apresentação ali, na hora. Momento de ternura antes de uma sessão boa de assistir.

A fala de Maria Helena, aliás, será o gancho para o texto. Disse ela, ao encerrar sua apresentação: “Não sou uma pessoa de cinema, mas sou espectadora, sou cinéfila”. Digo isso porque o cinema pra mim é, entre outras coisas, a possibilidade de construir e trocar referências pessoais, ideia essa que tanto Alma no Olho, de Zózimo Bulbul, quanto O Terror da Vermelha, de Torquato Neto, desenvolvem a partir de um elemento comum: o som.

Em Alma no Olho a relação dos processos diaspóricos que Bulbul constrói se organiza, sim pela força absoluta de suas imagens. O contraste entre a pele negra de tez escura e os objetos e cenários todos em branco. A dança performática de Bulbul e a maneira como por vezes o próprio espaço do enquadramento surge como elemento de construção da experiência do personagem. Está tudo ali. Mas há um elemento fundamental e que por vezes passa despercebido neste filme: a progressão sonora.

O filme de Bulbul começa com o som de tambores que nos remetem às tradições sonoras do continente africano. Aos poucos, ele vai se juntando a recortes de trilhas de jazz que se cruzam formando uma síntese sonora. Aqui abro um parênteses para recuperar uma referência maravilhosa que a crítica de cinema e pesquisadora de cinema afrofuturista Kênia Freitas compartilhou no 7º Olhar de Cinema, e que diz respeito ao som no cinema: a ideia das “ficções sônicas”. Em suma, o som que narra, que sugere, que carrega narrativas próprias.

Em Alma no Olho, além dessa definição, outra também é válida para aprofundar ainda mais as análises sobre o filme de Bulbul: a partir da leitura da obra de Grada Kilomba, importante intelectual negra a tratar dos efeitos da diáspora nos países deformados a partir desse processo. Diz Kilomba, em suma, que a experiência pós-colonial/diaspórica é pautada por um não lugar do colonizado (negros e indígenas, sobretudo) e por recortes que, cada um a sua maneira, tentam reconstituir identidades.

Por isso em Alma no Olho saímos dos tambores e chegamos ao saxofone, saímos do grave progressivo dos batuques e chegamos à desordem improvisada do jazz de John Coltrane. O filme de Bulbulé poderoso em suas imagens, mas inexiste sem a força de seus sons; o filme de Bulbul responde a relações diretas de imagem e som ligadas à estrutura racista ainda vigente, mas diz respeito também à subjetividade de um sujeito dentro de seu próprio tempo; o filme de Bulbul é um filme de Bulbul.

Encerrado Alma no Olho, em seguida veio O Terror da Vermelha, filme de Torquato Neto. O curta acompanha a trajetória do que supomos ser um jovem infrator pelas ruas da Paraíba. Sem diálogos, com intervenções de cartelas que surgem eventualmente, a trajetória do protagonista é inteiramente acompanhada por trilhas sonoras variadas que respondem a duas intenções principais: dar conta da subjetividade geracional do personagem e pensar a relação de influência do som sobre as imagens.

Quanto à subjetividade geracional, o filme acompanha um jovem formado sob a influência da contracultura norte-americana e brasileira. Saindo de Alice Cooper e chegando a Caetano Veloso, a trilha sonora do filme é síntese da trajetória de uma juventude inserida num tempo histórico e numa relação geográfica bastante específica. Além disso, na trajetória linear do personagem pelas ruas da cidade cada trilha parece compor uma atmosfera distinta, fazendo pensar como por vezes pode ser dominante a influência do som sobre a imagem, mesmo numa forma de expressão (o cinema) que toma a imagem como matéria-prima.

Apontando para filmes de uma mesma geração cronológica (apenas um ano de diferença entre um filme e outro), mas bem distintas do ponto de vista das referências subjetivas, essa sessão de curtas deu conta de aproximar filmes que, a princípio, ao menos eu entenderia como completamente distintos, num raro gesto que, indo ao encontro do que disse a irmã de Zózimo antes da sessão, parece considerar suas contradições e proximidades através de subjetividades que seguem para além das referências próprias das “pessoas de cinema”. Ao menos de quem usualmente entendemos serem essas pessoas.