A sessão da mostra Outros Olhares no dia anterior havia me deixado já com uma boa sensação por estar diante de dois filmes (casos de O Cemitério se Alumbra e Hair Wolf) que de alguma forma não apenas sublinhavam urgências do extracampo e experiências do mundo real, mas também se arriscavam na tentativa de formar através desses processos outras possibilidades estéticas dentro da própria linguagem dos filmes de gênero. Assim, fiquei feliz ao descobrir na mostra Competitiva de curtas-metragens do 7º Olhar de Cinema, numa sessão do dia seguinte, que também no Brasil um curta feito por uma realizadora negra estava experimentando esse caminho. Reconhecendo seus ímpetos e suas próprias fragilidades, falarei aqui sobre Carne, trabalho de estreia da cineasta Mariana Jaspe.

O título do curta é a primeira imagem que o curta propõe. Carne é a matéria do corpo dos dois jovens protagonistas do filme. Carne é corpo, mas pode ser alimento. Carne que não apenas se estabelece como meio de contato com o mundo, mas de contato entre experiências de vida no mundo. Ele a enxerga apenas como um corpo, ao que parece. Ela não quer ser apenas um corpo. Embora saibam que os corpos dela e dele carregam a mesma carne e que dessa carne há ainda quem (ou o que) se alimente.

A tensão que abre o curta é criada a partir de contradições naturais às experiências do casal e que culminarão numa discussão mais intensa. Aqui temos a primeira fragilidade do filme porque toda a conversa acaba soando um tom acima, ruidoso e expositivo por carecer de uma maior progressão entre os diálogos e a atmosfera de suspense. À medida que avançava, aliás, a conversa me suscitava devaneios: e se as questões da própria conversa fossem transformadas em imagem? E se fossem ambos os jovens vampiros, por exemplo? Embora eu evite sempre, através da crítica, refazer os filmes na minha cabeça, naquele momento essas me pareceram possibilidades de experimentação que talvez respondessem melhor ao próprio universo e à proposta do curta dirigido por Mariana.

Isso porque falamos aqui de corpos que carregam profundidades outras, e por isso talvez tão mais segura e coesa a realização do filme se tornaria quanto mais esses corpos fossem também usados como proposta de linguagem pela inovação de seus próprios lugares comuns. Penso na figura de Wesley Snipes em Blade: O Caçador de Vampiros, ou mesmo nas figuras de Marlene Clark e Duane Jones no clássico da blaxploitation Ganja and Hess. Mais do que no texto ou na narrativa da palavra, a proposição de renovação da linguagem está no corpo e na carne desses e dessas personagens dentro de seus movimentos pelo universo (e pela subversão das premissas muitas vezes racistas e sexistas) da ficção de gênero.

Outra questão que parece atravessar Carne fragilizando seu desenvolvimento começa na ideia de que, de modo geral, o gênero terror se forma enquanto linguagem a partir de medos, traumas e paranoias coletivas (entendendo coletividade aqui num sentido do que forma imaginários comuns). Assim são notórias, mas também naturais, as incertezas nas escolhas do curta sobretudo ao tentar construir seus códigos de terror a partir de experiências que não são necessariamente parte do cotidiano ou do imaginário comum de todos e todas que assistem ao filme. Penso, por exemplo, na trajetória da jovem negra que se sente objetificada ou mesmo na do jovem negro enquanto agente e sujeito de opressões. A questão que deixo ao filme nesse sentido é: precisamos mesmo nos explicar tanto?

Entre o encontro com filmes como este e a observação de suas possibilidades fica o desejo de que cada vez mais, nas programações de festivais de cinema (específicos de gênero ou não), seja possível descobrir, ver e pensar filmes como Carne: antes de tudo um exercício necessário de descobertas.

 

*Filme visto no 7º Olhar de Cinema