Não se pode negar a ousadia do cinema de Marcelo Pedroso. Em seu longa-metragem Brasil S/A, o diretor pernambucano se arrisca ao realizar um trabalho que, adotando uma visão crítica sobre o desenvolvimento econômico brasileiro, prescinde de qualquer tipo de fala para fazer um painel alegórico do passado, do presente e de um possível futuro do país.

Logo na primeira cena existe uma síntese do que será trabalhado ao longo do filme. A água é filmada em câmera lenta em toda a sua exuberância. Com um corte, percebemos que o que gera aquele movimento é o deslocamento de um enorme navio cargueiro. O tema da agressão à natureza (e posteriormente ao espaço urbano) realizada pelo ser humano – e pelas máquinas construídas por ele próprio – se repetirá ao longo da projeção.

Há uma linha de condução da narrativa através de um personagem cortador de cana que posteriormente se envolve em uma bem-humorada expedição espacial. De resto, personagens arquetípicos se revezam em esquetes que lidam com várias facetas da ideia de progresso e de um certo messianismo propagado no Brasil há muito tempo. Somos o eterno país do futuro, mas não nos damos conta dos absurdos cotidianos que já limitam nosso presente.

O filme tem diversas características semelhantes às do curta-metragem Em Trânsito, do próprio Pedroso. O trabalho com atores não-profissionais, a ausência de diálogos, a fotografia publicitária que serve como ironia ao discurso comumente vendido sobre o país, a visão desoladora sobre o entupimento das vias pelos automóveis, a personificação das máquinas, etc. Mas, até pela diferença de formatos, o curta tem a crítica dirigida a um momento político e a um tema específico, enquanto que o longa busca abranger, em suas diversas situações, uma vastidão de temas que fazem parte da construção de imagem do país.

Sem dúvida há passagens interessantes e bem filmadas. Só para ficar em dois exemplos: o caminhão que leva os motoristas que querem fugir do trânsito, oferecendo até um andar vip na cobertura; e a escolta das escavadeiras guiada por uma marcha de guerra utilizada como trilha sonora, que pontua uma ironia presente em outros momentos do longa.

Por outro lado, a busca incessante pelo clímax cria uma espécie de esquematismo que engessa o filme, interfere negativamente em seu ritmo e enfraquece o seu discurso. Há uma pretensão totalizante que quer dar conta de uma infinidade de temas e acaba soando por vezes ingênua (como na metáfora da bandeira) e superficial (como na cena do carro blindado). Assim, embora seja admirável em sua proposta, Brasil S/A não foge de um resultado final irregular.

Nota: 6,5/10 (Regular)

 

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