- E Bacurau, é o quê que significa?

- É um pássaro.

- Passarinho?

- Passarinho não, pássaro. É um pouco maior.

- Entendi. Mas tá extinto já, né?

- Aqui não. É que só sai de noite. Ele é brabo.

 

Exceto em situações ímpares, como no ritual fúnebre em homenagem a Dona Carmelita (Lia de Itamaracá) visto na sequência inicial do filme, a vida comunitária em Bacurau atinge seu pico no período noturno. Passadas as obrigações laborais (ou escolares), chega o momento de jogar capoeira, brincar na escuridão, debater a destinação dos “presentes” do prefeito ou simplesmente ficar de bobeira em torno do telão acoplado no carro do DJ Urso (Jr. Black).

Em um lugar em que até mesmo o cochilo pode ganhar uma dimensão comunitária, desde que haja uma cama desocupada no posto de saúde, o sono é estratégico. Transformá-lo em vigília, na primeira noite pelo irromper de cavalos, na seguinte por um assassinato/declaração de guerra, é sinal de que o ataque que se aproxima é também, ou sobretudo, a um modo de vida.

Por outro lado, é peculiar a relação dos estrangeiros com a noite. Quando Michael (Udo Kier) – após comandar remotamente uma operação de caçada humana – dirige-se a um aposento coletivo, o breu externo dá lugar a uma intensa iluminação artificial (tal como para um drone, há um movimento de indistinção entre dia e noite). Enquanto Kate (Alli Willow) tenta em vão pegar no sono vestindo sua máscara para dormir, seus colegas discutem sobre a “ética” de uma morte recém-ocorrida. A cena faz lembrar discussões trazidas pelo crítico de arte Jonathan Crary no livro 24/7: capitalismo tardio e os fins do sono, particularmente neste trecho:

 

“As mudanças recentes mais importantes dizem menos respeito às formas mecanizadas de visualização do que à desintegração da capacidade humana de ver, em especial da habilidade de associar identificação visual a avaliações éticas e sociais. (…) A situação hoje é comparável ao clarão da iluminação de alta intensidade ou à névoa cerrada, nos quais a ausência de variações tonais não nos permite fazer distinções perceptivas e nos orientar em função de temporalidades compartilhadas. O clarão, nesse caso, não é o brilho literal, mas a estridência ininterrupta do estímulo monótono, no qual é congelada ou neutralizada uma extensa gama de capacidades reativas.” (CRARY, 2016, p. 43)

 

Desintegração da capacidade humana de ver… Não seria por isso, afinal, que passam as principais discussões propostas por Bacurau? Se, como escreveu Kênia Freitas, o filme trabalha deliberadamente com noções de profundidade (na apresentação do povoado e de seus moradores) e superfície (no modo abrupto com que o grupo de estrangeiros surge e é retratado), isso também está impregnado no olhar dos personagens.

Quando um objeto voador cruza o caminho de Damiano (Carlos Francisco), ele identifica o perigo da maneira mais concreta possível (é um drone), despindo a imagem de outros possíveis significados (a nave “de filme americano”). Já os invasores falham miseravelmente quando precisam fazer um movimento inverso, ou seja, entender a espessura que existe por trás de certos produtos (o refrigerante local), locais (o museu) e imagens (o carro de polícia abandonado – como olhar para aquilo e enxergar apenas um “ferro velho”?).

No caso do prefeito Tony Júnior (Thardelly Lima), é curioso como a sua presença no povoado parece estar atrelada menos a uma tentativa de angariar votos na localidade e mais ao intuito de produzir imagens que possam lhe beneficiar com eleitores de Serra Verde, o município onde está localizado Bacurau. Mas como se beneficiar de uma imagem tão abjeta quanto a dos livros sendo despejados feito lixo na porta da escola? A resposta talvez esteja fora da ficção, por exemplo na chegada de helicóptero do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, comemorando feito um gol o assassinato de um jovem que havia sequestrado um ônibus na ponte Rio-Niterói. Um detalhe: tanto Tony quanto Witzel pedem para seus assessores filmarem as ações.

Bacurau é todo construído a partir desta fricção entre regimes de visibilidade distintos (o dos moradores, o do prefeito, o dos estrangeiros). Mesmo no que há de mais insuficiente no filme – notadamente as facilidades dramatúrgicas na configuração do conflito final – existe um caminho que desemboca nesse tensionamento macro.

Se em termos narrativos o filme não convence nem em relação à sabotagem desempenhada pelo personagem de Udo Kier na ação dos invasores, tampouco à sua motivação para tentar o suicídio, em outra chave de leitura é notável que o reconhecimento da derrota se dê pelo rápido acesso dele a um outro regime de visibilidade, no momento em que enxerga Carmelita. O fracasso de Michael é também um fracasso do olhar.

 

*Filme vencedor do Prêmio do Júri no 72º Festival de Cannes