Quando é que um pedaço de terra vira o que chamamos de “rua”? Quem a nomeia e de onde vem os títulos dos logradouros, já tão naturalizados no cotidiano das cidades?

Puerto Pirámides, módica cidade litorânea da Patagônia argentina, passou por uma experiência recente que ilumina o processo de institucionalização do espaço quando feito com afinco democrático, arraigado à comunidade, respeitando a história e a dignidade de quem vive ali. Suas ruas, até então sem nome, foram objeto de extensa pesquisa realizada pelos alunos da única escola local, com o intuito de nomear as vias. O projeto envolvia entrevistas com habitantes, a fim de conhecer suas histórias e ouvir sugestões. Ao final, uma votação  elegeria os nomes vencedores.

A diretora argentina Maria Aparicio reconta o fenômeno encarando uma missão descritiva que já carrega uma interessante ambivalência de partida. Por um lado, Puerto Pirámides é marcada pela incompletude, pois, aos olhos de um morador da típica cidade grande ocidental, suas ruas parecerão inacabadas, frutos de um desenvolvimento urbano errático, que ainda não se realizou plenamente. Este aspecto é realçado quando Aparicio fotografa, em grandes planos, suas vielas e esquinas, nas quais é nítida a gradação caótica entre a natureza propriamente dita (a terra, o matagal e as árvores) e a cidade construída (o concreto, o muro em construção, a antena no telhado).

Por outro lado, o retrato do local sugere autenticidade. Como se ali, lugar urbanizado ou não, já houvesse dimensão humana farta o bastante para lhe conferir identidade. Além dos depoimentos dos habitantes mais velhos – que narram histórias antepassadas indígenas – as imagens relacionadas à pesca (principal atividade econômica e indutora dos ritos e dinâmicas da cidade) e a calma com que as paisagens vão surgindo permitem que nos aclimatemos a uma atmosfera própria. É este um mérito cinematográfico importante, pois há pouca coisa pior do que decupagens forçosamente descritivas que, no fim, entregam uma visão genérica.

Acontece com certa frequência também na literatura comercial de qualidade duvidosa: o escritor passa cinco páginas descrevendo uma praia (ou um beijo, ou uma árvore, etc.) e tudo o que se consegue visualizar é aquela mesma praia que você e todo mundo visita no verão. Já As Ruas constrói um lugar que parece único. Nomear suas ruas se transformará, portanto, na busca por afirmar identidades.

É bonito, ainda, que sejam os jovens a executar tal tarefa. Numa concepção em que a escola é orientadora de iniciativas para a melhoria da cidade, as noções de ética e cidadania passam pela ideia de que é necessário entender o local em que se vive. Guiados pelos princípios da História Oral, os alunos aprenderam a medir quando a intimidade do que é contado pode atingir uma dimensão pública e, imbuída no processo histórico, simbolizar o direito à memória. No Brasil, onde pululam logradouros em homenagem arbitrária às figuras mais nefastas da nossa trajetória, As Ruas deveria ser projetado em praça pública.

 

Sessões do filme na 40ª Mostra de São Paulo

Dia 24/10 – 19h15 – Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 3

Dia 25/10 – 13h30 – Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 6

Dia 28/10 – 21h30 – Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 5

Dia 29/10 – 14h – Espaço Itaú de Cinema – Augusta Anexo 4