Há em As Fábulas Negras, longa-metragem com episódios dirigidos por Rodrigo Aragão, Joel Caetano, Petter Baiestorf e José Mojica Marins (o Zé do Caixão), duas vontades muito claras: introduzir o universo dos filmes de terror/trash a um público mais jovem e valorizar a rica cultura popular brasileira.

Pode-se notar isso a partir da maneira com que o filme é estruturado, centrado em um grupo de crianças que passeia por uma floresta e veste fantasias que não remetem a qualquer herói criado no exterior. Os episódios são introduzidos à medida que as histórias são contadas pelos jovens que as ouviram. Essa oralidade, típica da cultura popular, se torna mais um elemento de sustentação do caráter fantástico buscado pelo trabalho.

O primeiro episódio, dirigido por Rodrigo Aragão, é uma espécie de versão trash do capítulo protagonizado por Ricardo Darín em Relatos Selvagens, com a opressão do Estado sobre o cidadão comum gerando uma reação à altura. É interessante nesse segmento o conceito de criação do monstro através dos malfeitos dos políticos, resultando num ataque dos “de baixo” sobre os “de cima”.

No episódio posterior, dirigido por Petter Baiestorf, há uma história clássica de lobisomem, em que o mistério é a identidade da criatura. A inventividade na criação estética dos monstros pode ser verificada neste segmento e ganha o seu ponto máximo no episódio dirigido por José Mojica Marins, que traz o saci mais assustador que o cinema já viu, desvinculando a criatura da sua usual imagem associada ao universo infantil.

Além dos inspirados monstros, a maquiagem também é um fator que ajuda a dar força ao filme, passando bem pela tênue linha entre o risível e o assustador. Um bom exemplo disso está no episódio dirigido por Joel Caetano, que tem em personagens com maquiagens carregadas pontos-chave para a solução da trama, que faz uma releitura inspirada do mito popular da Loira do Banheiro dentro de um misterioso internato de mulheres.

Há ainda um quinto segmento que tem como uma de suas funções servir como base para a boa resolução do filme, que fecha um ciclo narrativo e sugere que a riqueza do imaginário popular nunca terá fim. Assim, estão abertas as portas para que mais bons filmes do gênero apareçam no Brasil.

Nota: 7,5/10 (Bom)

 

*Filme visto na 18ª Mostra de Cinema de Tiradentes

 

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