Ainda Sangro Por Dentro constrói uma relação com o corpo da mulher, o carnal e o voyeurismo social. O filme conta uma história que busca representar mulheres discriminadas por serem vítimas de violência sexual, que devem esconder-se diante da sociedade brasileira que celebra o estupro até onde a impunidade permite.

O trabalho de Carlos Segundo traz a memória traumática que pulsa ciclicamente, renovando uma interminável sensação de vulnerabilidade e as ameaças de um futuro na “selva”. A fortaleza virtuosa da mulher parece ser o maior sustento da sua integridade, até o fim.

Vítima constante de julgamentos, cercada de homens abusivos, a protagonista Dora ratifica os vícios da cultura vigente que se misturam à condição da mulher pobre brasileira, empurrada para a margem, reduzida à carne de açougue na composição de um quadro social ao mesmo tempo medíocre e desesperador.

Através de uma câmera que testemunha situações cotidianas generalizadas, porém exclusivamente aprisionadoras, o filme trabalha uma justa fatia de desconstrução, desafiando o espectador a compreender os pesos da própria imagem e multiplicando a dimensão do seu contexto. Em sincronia, para além da importante função narrativa e reveladora das palavras, o diálogo é instrumentalizado para expor aqueles conhecidos contratos sociais subentendidos, transbordantes em abuso e machismo.

Rituais diários deslizam para o bizarro. Não parece surpresa quando os juízos de valor do homem abominam o corpo e a integridade da mulher, mas sim quando o produto da sua agressão está desnudo, exposto num pote transparente no armário da cozinha. Um souvenir visceral, lembrança desse mesmo ciclo de desvalorização e julgamento.

Se o cinema é também instrumento de reflexão, Ainda Sangro Por Dentro é definitivamente matéria para o debate sobre opressão, cultura de estupro, representatividade, protagonismo, feminismo. Colocando na roda questões que despontam do mesmo lugar de onde tensiona-se a personagem até seu limite, cria-se uma protagonista que extrapola a tela, mesmo que algumas de suas intenções estejam obscuras para o senso comum e manutenção do conformismo, principalmente porque “tem dor que dói no corpo que não tem olho que enxerga”.

Nota: 9,0/10 (Excelente)

 

Sessões de Ainda Sangro Por Dentro no 5º Olhar de Cinema:

- 11/6 – 19h – Espaço Itaú – Sala 2 – Shopping Crystal

- 14/6 – 16h15 – Cineplex – Sala 5 – Shopping Novo Batel

 

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