A Prisão em Doze Paisagens, documentário dirigido pela canadense Brett Story, traça uma espécie de perfil do sistema prisional norte-americano a partir de uma perspectiva inovadora: o impacto do encarceramento em massa do lado de fora das grades.

Sem mostrar em momento algum o interior de uma prisão, o filme faz jus a seu título, focando nos cenários onde as instituições estão inseridas. As questões levantadas são muitas: o racismo policial, retratado pelos violentos protestos na Detroit de 1967 e, recentemente, em Baltimore; a reinserção de ex-presidiários na sociedade, como no caso da cidade que proíbe que agressores sexuais vivam perto de locais frequentados por crianças; ou o impacto na economia, no caso de Kentucky, onde o fechamento de uma prisão significa o mesmo que a falência de uma indústria.

Em doze pequenos episódios, nomeados sempre com o nome de cada paisagem – seja ela uma cidade, uma região ou um bairro –, a diretora constrói um interessante panorama através de personagens de cada local. As entrevistas são em geral informais, feitas no próprio habitat natural de cada um, o que traz mais autenticidade para as histórias, que em alguns casos atingem um tom de conversa, como se a câmera não estivesse presente.

Esse ar informal combinado a uma montagem inteligente contribui para a criação de uma narrativa que busca com frequência, além de apresentar uma história peculiar, humanizar a figura do presidiário. Sem revelar a identidade do entrevistado com nenhum tipo de recurso gráfico, o espectador se dispõe a ouvir o relato com pouco ou nenhum pré-julgamento, descobrindo somente depois de algum tempo que se trata de um ex-preso, por exemplo, como no caso de um simpático transeunte que revela ter acabado de cumprir 27 anos de sentença.

A própria abertura do filme é construída nesse sentido: imagens desfocadas de uma viagem noturna de ônibus são acompanhadas de gravações telefônicas carinhosas, exibidas em uma sequência que mostra pouco a pouco se tratarem de ligações de familiares a seus parentes presidiários.

Mesmo com essa clara inclinação do documentário a um discurso menos conservador, criticando em determinados momentos o preconceito da sociedade em relação aos que cometeram crimes e a penalização exagerada da população negra, o filme tem uma postura muito mais questionadora do que de denúncia, elencando situações que transparecem os efeitos do contraditório encarceramento em massa no país, sem necessariamente dar uma resposta sobre o que deveria ou não ser feito. O principal objetivo é traçar uma análise das mais diversas consequências desse fenômeno nos Estados Unidos, em setores por vezes inimagináveis, como no caso da loja criada especificamente para familiares enviarem aos presos objetos que estejam de acordo com os regulamentos prisionais.

Nesse sentido, o grande leque de assuntos tratados pela diretora, que em um primeiro momento poderia ser visto como uma falta de objetividade narrativa, se justifica ao mostrar-se necessário para exibir de forma rica as múltiplas facetas que o sistema prisional norte-americano tem adquirido.

O filme consegue romper a barreira da obviedade e traz elementos importantes a serem considerados no debate, também bastante presente no Brasil, sobre os rumos do encarceramento, evidenciando acima de tudo que, independente do posicionamento nessa discussão, as decisões tomadas impactarão direta e indiretamente a vida de milhares de pessoas, sejam elas condenadas ou não.