Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Sábado à noite, Jean (Pepa Quadrini) dirige seu carro em vias solitárias, enquanto escuta aquelas mensagens românticas propagadas por uma rádio local. Algum tédio se apresenta por meio da inação, quase uma angústia. Sua namorada, Carol (Natália Mazarim), com quem encontrará mais tarde, se sente só.

A diretora Nathália Tereza, de A Casa Sem Separação, acerta na manipulação de um recorte temporal breve – uma noite – que se embrenha de clima peculiar, vindo da união entre ritmo da cena e uso expressivo do espaço. Natural de Campo Grande, assim como o ator protagonista, Nathália faz do estacionamento do Parque das Nações Indígenas, da Avenida Afonso Pena e do interior de um karaokê bar os espaços formadores de um anfiteatro melancólico, onde se expressa o refúgio da rotina e o desafogar das mágoas. É o lugar da reflexão e da entrega.

Destaca-se também uma belíssima apropriação lírica do universo brega, realizada com desenvoltura semelhante em filmes do cearense Karim Aïnouz, como O Céu de Suely e Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, que também abordam personagens andarilhos em conflitos existenciais.

Peças do cancioneiro popular, em especial os hits do sertanejo e de outros gêneros da música romântica, têm inconteste poder catártico, são representativas em diversas regiões brasileiras (nas quais o rádio é imperante) e constituem a atmosfera afetiva desses locais. Em curtas como A Outra Margem, os personagens resplandecem junto com a cultura de onde vieram. Ao nos conectarmos a eles, resgatamos – por alegoria, menções e conduções – um pedaço do Brasil ainda pouco mostrado no cinema.

Nota: 8,5 / 10 (Ótimo)