Se em Os Jovens Baumann Bruna Carvalho Almeida investiga a natureza da imagem do vídeo, em A Noite Amarela Ramon Porto Mota faz o mesmo com a imagem digital. As coincidências entre os filmes parecem mais óbvias na superfície: em ambos um grupo de adolescentes isolados está sob uma atmosfera de ameaça constante (que Ramon leva mais longe, flertando com o terror). Mas se no filme de Carvalho Almeida os jovens fantasmas lutam entre o desaparecimento e a fixação no tempo, em A Noite Amarela o embate é entre os corpos reais e seus duplos virtuais.

“Penso que o tempo sempre quis me devorar / Me perco neste tempo / Me perco neste tempo / Me perco neste tempo”, repete a trilha de As Mercenárias ao longo do filme. Esta espiral temporal à qual o filme convida a entrar, diferentemente do tempo fixado na fazenda Baumann, é intrínseca a uma virtualidade do espaço. Um espaço lynchiano, de duplos e múltiplos espectros e realidades, de sonhos dentro do sonho, que aqui nasce como que de uma fenda na imagem digital; uma falha, não no sistema, como em outros filmes do gênero, mas na própria imagem, que trava, pixeliza, desmancha-se em cores RGB.

Não são poucas as referências ao espaço virtual em que os personagens interagem por meio de suas imagens. São vídeos e fotografias para a internet, compartilhados, descartados ou preservados nos aparelhos móveis – que, não por acaso, não têm utilidade na ilha-portal onde toda a ação do filme acontece. Impossível não pensar nos múltiplos personagens que os adolescentes, mas não apenas eles, constroem nas redes sociais deste mundo digital paralelo.

Além dos sonhos, dos espelhos e diversos signos relacionados às realidades paralelas, a montagem perturbadora de A Noite Amarela nos atravessa constantemente entre os mundos. Dos cortes secos, como na sequência do posto de gasolina, às fusões elegantes entre portas, mar e areia, dos rostos e corpos adolescentes aos split screens, que separam e aproximam as realidades, toda montagem é feita objetivando a confusão, o transtorno. Soma-se a isso um trabalho de som minucioso e, voilà!, temos um suspense onírico de primeira ordem, que nos assombra pela beleza e pela obscuridade.

Obscuridade que não é novidade em filmes do gênero, sobretudo nos que apresentam adolescentes como protagonistas. Por vezes utilizada como metáfora de um período de transição, de incertezas, que em A Noite Amarela é identificada como a realização do ENEM, teste de entrada para a universidade, ele próprio portal para um outro mundo. Mas no momento histórico de lançamento do filme de Ramon Porto Mota, esta obscuridade ganha contornos políticos. “Era como se eu visse o futuro e ele não fizesse sentido algum”, diz a certa altura uma personagem. Todas estas imagens interrompidas, corrompidas, duplicadas e deformadas traduzem um certo horror ao que está por vir.

O roteiro que não se explica, as histórias que não se completam, os personagens que são engolidos pela escuridão, tudo isso, neste momento, diz respeito também ao atordoamento que nos cerca a todos. Um adolescente acena para a câmera em imagem vertical: “Tchau vocês do futuro que estão assistindo”, mas poderia muito bem dizer: “Vocês aí do futuro real que se entendam, eu fico por aqui.”

 

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