A Moça que Dançou com o Diabo, curta dirigido por João Paulo Miranda Maria, surpreende pela combinação inusitada entre o contexto em que foi produzido e o sucesso que tem alcançado: o filme foi rodado em Rio Claro, interior de São Paulo, com um orçamento de apenas R$ 500. Simples, mas com roteiro forte, a obra fez sua estreia no Festival de Cannes, de onde saiu premiada.

As raízes paulistas do filme se mostram na construção de um enredo baseado em uma antiga lenda do interior. Na história original, uma garota rica, de família religiosa, desobedece os pais e vai a um baile de carnaval em plena Sexta-Feira Santa. Atraída por um rapaz, que a convida para dançar durante a festa, a moça é surpreendida quando, à meia-noite, ele retira seu chapéu e mostra os chifres do Diabo em pessoa.

Ao trazer a história para os dias de hoje, Miranda Maria faz uso inteligente do universo conservador religioso, o que contribui não só para um enredo mais realista, mas também para a construção de uma crítica ao fanatismo que inverte a moral da lenda, ironizando o comportamento hipócrita de uma parcela de devotos que pregam sobre algo que nem eles mesmos são capazes de praticar. A intolerância ao próximo presente em seus discursos é levada ao pé da letra, de forma quase cômica, pelo Deus impiedoso que transforma em chamas seus inimigos, inclusive quando estes são seus próprios seguidores.

A câmera, quase sempre estática, com planos longos, coloca o espectador em uma posição que tende mais à de um observador do que de um participante, como se espiasse os bastidores da garota que deveria ser um exemplo de fé, alimentando um suspense crescente, já introduzido pelo próprio título do filme, que cria a expectativa de que em algum momento seus pecados serão revelados – e, supreendentemente, julgados pelo divino.

A Moça que Dançou com o Diabo acerta ao encontrar o equilíbrio de um filme que entretém de forma construtiva e, a partir de uma história simples, faz sua crítica, sem cair em uma linguagem óbvia ou abstrata demais. Uma espécie de sátira ao fundamentalismo religioso, o filme se apresenta em um momento historicamente importante no Brasil, onde cresce o conservadorismo e a influência religiosa na política, e acaba por contribuir de forma excepcional para esse debate.

Nota: 8,0/10 (Ótimo)

 

*A Moça que Dançou com o Diabo recebeu Menção Especial do Júri no Festival de Cannes 2016 e estreia no Brasil durante o 5º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba

 

Sessão de A Moça que Dançou com o Diabo no 5º Olhar de Cinema:

- 11/6 – 17h – Espaço Itaú – Sala 2 – Shopping Crystal

 

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