As mostras de cinema mais robustas, com seleção numerosa e variada de títulos, costumam iluminar nosso repertório cultural com vigor ímpar. Trazem questões que desconhecemos, paisagens até então inusitadas, sabores exóticos de um mundo distante. O público da 38ª Mostra terá a oportunidade de experienciar em A Ilha dos Milharais uma preciosidade guiada por esses elementos.

Entre a Geórgia e a Abecásia (república separatista) passa o rio Enguri, cujo curso leva sedimentos do Cáucaso e forma pequenas ilhas com solo fértil. Em um desses pedaços de terra, um agricultor idoso (Ilyas Salman) constrói uma casa de madeira e, junto com sua neta (Mariam Buturishvili), ficará lá durante a primavera, plantando o milho que vendem e estocam para o inverno.

Um filme sobre o espaço e seus limites

Um filme sobre o espaço e seus limites

O conflito em torno do espaço é a grande questão norteadora da progressão dramatúrgica e mediadora da relação entre os personagens. A pequena ilha é presente da natureza, que a criou e tem o poder de eliminá-la. As chuvas, ventanias e o comportamento das águas do Enguri nos avisam que aquele espaço é efêmero e seu recorte é inconstante. O humano é quem o ocupa e, com a preciosa engenharia da madeira e de outros elementos, o transforma. Sob ritmo delicado e generoso, acompanhamos o erguer da casa e da plantação de milho, que não para de crescer, alterando a todo momento a paisagem que vislumbramos por meio da estonteante fotografia de Elemér Ragályi.

O espaço em suas noções de pertencimento e intimidade também figura, principalmente na mente da neta, em plena puberdade. Uma casa de um cômodo só e um avô de olhar severo e intimidador são obstáculos para a garota com o corpo em transformação. Além disso, numa terra de ninguém, em zona fronteiriça beligerante, não sabemos o que pode cair em nosso quintal. A localização sensível é fonte de conflitos e ressignifica o espaço, muito além de uma plantação de milho improvisada.

O diretor George Ovashvili é um raro artesão do tempo cinematográfico. No intuito de sintetizar os ciclos da natureza e poetizar as analogias ligadas ao conceito de maturidade (da terceira idade, do corpo feminino, do milho, da relação entre eles), escolhe explorar a pequena ilha com uma câmera contemplativa que ora nos joga para fora, como se estivéssemos num barco contornando o local, ora nos insere no drama da terra. Com pouquíssimas falas, A Ilha dos Milharais se apoia no registro da força maior, aquela da qual todos somos reféns. A natureza manda e desmanda com intensidade imprevisível, num espetáculo que subjuga nossos planos e hipnotiza nosso olhar.

Nota: 9,0/10 (Excelente)

 

* Filme visto na 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo