Durante as filmagens do curta-metragem História de uma Pena, Leonardo Mouramateus comprou uma câmera fotográfica analógica e passou a registrar os bastidores da filmagem, os amigos e as ruas de Fortaleza. O título A Festa e os Cães entrega quais são os protagonistas dos ensaios do cineasta neste curta-metragem realizado quase que inteiramente com tais imagens de arquivo.

Com as fotos sobre uma mesa, o próprio Leonardo mostra uma a uma, enquanto se ouve uma narração, inicialmente do próprio Leonardo, depois de outros amigos, também fotografados. Longe do automatismo da projeção de slides, quando o comum é a foto subitamente dar lugar a outra, a escolha por passar as imagens com a mão, em velocidades variadas, cria as cadências rítmicas responsáveis pela gostosa fluidez com que o filme anda. Ressalta, também, a importância da sequência na criação do clima e do ambiente a serem erguidos ali. Com um narrador, imagem e palavra vão se conjugando juntos, em relação ora complementar, ora ilustrativa, ora dissociativa, ora poética. Close-ups nas fotos, lacunas de informação e alguma quebra de linearidade dão o tom da condução.

Mas o curta-metragem me causou, quase imediatamente, um sentimento de nostalgia. Refleti a fim de justificá-lo, mas a tarefa não é tão simples. Uma obviedade seria suscitar a “estética do antigo” e culpar os grãos, ruídos e manchas das imagens, resultantes do processo de revelação analógica. Outra obviedade seria sustentar a natureza fundamental da fotografia, que é necessariamente um registro pretérito. Penso, então, se o efeito nostálgico também tem relação com a) o clima festivo das situações e b) a juventude dos personagens.

Atribuir à beatitude das imagens a nostalgia causada é revelar um pouco a melancolia do presente, o pessimismo daquela habitual autoanálise que julga o ontem melhor que o hoje. E creio que a juventude seja a época com mais potencial para experiências inesquecíveis (o primeiro beijo, as transformações do corpo, o grupo de amigos). Nesse universo, naturalmente dinâmico e hiperbólico, A Festa e os Cães parece compartilhar conosco uma memória afetiva poderosa, pessoal, sobre um tempo de curtição, de emoções libertárias.

Todo esse conjunto de sensações se acentua quando sabemos que Leonardo foi embora logo depois do filme (deixou Fortaleza e hoje mora em Lisboa, onde cursa Mestrado em Arte Multimídia). Há cineastas que buscam mostrar, em suas obras, uma identidade ligada aos cenários, temas e afetos de suas cidades. Mas não raro acabam revelando um conflito espacial com o lugar que tanto amam, como se alguma ambição ou sentimento não coubesse mais ali. Seria especulação afirmar que Leonardo é um deles, mas é inevitável ressignificar o filme à luz do fato de que aquela turma de amigos retratada não ocupa mais as ruas de Fortaleza, agora habitadas por outros: os cães.

Nota: 8,5/10 (Ótimo)

 

Sessões de A Festa e os Cães no 4º Olhar de Cinema:

- 16/6/2015 – 19h – Cinesystem (Sala 4) – Curitiba

- 17/6/2015 – 15h45 – Cinesystem (Sala 4) – Curitiba

 

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