Em A Cidade Onde Envelheço, novo filme de Marília Rocha, vida e cinema se fundem em uma concepção que afronta uma noção simplista de causa e consequência. Emigrante portuguesa estabelecida em Belo Horizonte, Francisca (Francisca Manuel) recebe em sua casa a conterrânea Teresa (Elizabete Francisca), uma conhecida com quem não falava há algum tempo. Sua reação quando é questionada sobre o status de um relacionamento, ao dizer que “isso de namorado não existe”, é significativa sobre uma proposta de desapego a rótulos que demonstra o tipo de abertura para o mundo a que o filme se propõe.

Nas entrelinhas das apresentações das personagens já percebemos alguns aspectos importantes de suas personalidades. Pelo uso do mochilão nas costas e por estar em uma rodoviária, podemos concluir que Teresa está viajando pelo Brasil há algum tempo, mas mais interessante do que esse tipo de adendo informativo é a transmissão do seu estado de espírito e da sua vontade de se abrir ao novo, que vêm à tona no rápido plano em que a vemos conversar com grande interesse com um senhor na rodoviária sobre um assunto banal. Já com relação a Francisca, sua primeira sequência na tela, carregando um colchão da rua para a sua casa e reclamando do desmanche de seu escritório, remete a uma quebra de ordem mais ampla que a chegada da amiga lhe trará.

Um risco grande que o filme corria a partir daí era o de se ater a um esquematismo fruto de seu ponto de partida narrativo – duas personagens espelhadas vivendo diferentes momentos de uma experiência semelhante. Acontece que o movimento do trabalho é o de realizar um apagamento da importância da trama ou de algum grande objetivo a ser atingido, se apoiando, por outro lado, em uma relação visceral com o tempo presente, atingida graças a uma comunhão libertadora entre a câmera e os corpos/olhares das atrizes.

A espontaneidade dos diálogos, a maneira de expor em palavras os choques culturais de estrangeiras no Brasil e de criar um senso de proximidade através de elementos mínimos, como trocas de olhares ou uma piada que não tem lá tanta graça – e que por isso mesmo faz rir – nos leva a crer erroneamente que estamos vendo em tela atrizes consolidadas no cinema português.

Uma questão que salta aos olhos, com certeza relacionada ao olhar de uma mulher na direção, é o fato de o filme nunca colocar a erotização do corpo feminino em primeiro plano. O sexo (e, mais propriamente, o encontro com homens) não é tratado como um elemento definidor na vida das personagens. Essa relativização aparece na forma com que é mostrada a primeira cena de sexo, com o parceiro de Francisca sendo enquadrado de costas.

Outro momento exemplar é a elipse que ocorre de uma cena de “pegação” em uma festa para outra em que Teresa aparece melancólica, pensando sobre a sua terra natal. Não há a correspondência óbvia que esperaríamos tendo em vista o que sugere um plano e o que mostra o outro, e isso ajuda a dar complexidade à personagem, cujos pensamentos e sentimentos não surgem presos a uma camisa de força do desenvolvimento narrativo.

Por esse tipo de apego ao fluxo do presente é que a necessidade de haver algum tipo de interrupção com vistas ao final do filme é uma questão importante. A quem se atém apenas à progressão narrativa, o esquematismo aparente ressurge na forma com que um personagem representa um elo entre uma antiga e uma nova experiência. É um simbolismo de fato um pouco óbvio, mas o próprio entendimento de que o trabalho de Marília Rocha desestabiliza a todo tempo esse tipo de olhar superficial faz com que o realce da sequência final seja muito mais voltado a uma ideia de fixação – nunca absoluta, sempre momentânea – a um lugar.

 

*Filme visto no 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro