A sessão de abertura da 13ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto sugeriu a mim uma série de questões que talvez apareçam em outros textos, a depender da energia que mobilize essas escritas. Entre as questões às quais me refiro, uma delas dialoga com a atriz homenageada deste ano: Maria Gladys. Numa sessão que contou com o curta Maria Gladys: uma atriz brasileira, de Norma Bengell, seguida pelo canônico Sem Essa, Aranha, de Rogério Sganzerla, foi sublinhada uma característica fundamental da presença de Gladys em ambos os filmes e em sua carreira de modo geral: a capacidade natural de ser a antítese das grandes divas (e na verdade de todo um pensamento deslumbrado que ronda alguns espaços de cinema). Gladys é uma atriz gente da gente, e quem dera o cinema como um todo soubesse tão bem ser mais gente da gente.

Quanto aos filmes: no curta dirigido por Norma Bengell, que pode ser definido como um experimento visual do exílio (exílio político e pessoal, exílio emocional e retórico), a presença, o corpo, as inflexões e o impulso de Gladys dão conta de um domínio muito natural da atriz sobre a câmera (esse objeto que tanto já foi um meio de perpetuação das violências contra mulheres). Além, a relação entre Bengell, Gladys e a câmera responde a uma intimidade que ganha outras dimensões se colocada em perspectiva: falamos, afinal, de um curta feito por duas mulheres no período da Ditadura Militar. Parte dessa relação entre forma e contexto se repete em Sem Essa, Aranha, de Rogério Sganzerla.

Sabe-se já que o longa de Sganzerla é um tratado anti-cinematográfico. Filme histriônico, de estética histérica, de rupturas paradigmáticas. Traços estes conduzidos para o bem ou para o mal (há uma repetição de negações formais no filme que depois de algum tempo tendem a ser um exercício esvaziado), a depender das possibilidades de discussão. Isto porque filmes que ocupam lugar tão definitivo podem ser referência, mas também sinal de um saudosismo um tanto desmotivado.

Por isso, aliás, a discussão que talvez mais me interesse neste caso seja sobre os porquês de um festival que traz em seus eixos, além dos filmes em si, também discussões sobre cinema e educação, ter como temática central as vanguardas tropicais e abrir sua programação com Sem Essa, Aranha. Há nesse movimento um diálogo muito fechado em si, que parece colocar em seu centro a necessidade de um referencial crítico prévio enquanto desloca para as margens um público naturalmente não habituado a discussões do tipo. Essa inversão dos caminhos de formação pode ter como efeito mais drástico a criação de uma zona confortável (sintoma maior de nosso tempo). Porque se interpretamos o mundo a partir dos mesmos referenciais, a tendência é que as contradições e tensões desapareçam. Porque quando falamos de uma cidade como Ouro Preto, talvez nem a Tropicália dê conta de aprofundar as tensões.

Considerações feitas, é sempre válido reafirmar como a presença de Gladys em Sem Essa, Aranha – e não somente dela, mas do elenco feminino como um todo – não é apenas uma questão de talento, mas de absoluta coragem. 1970. Ditadura Militar. Estar num filme tão anárquico talvez implicasse não apenas o fim da carreira, mas o fim da própria liberdade. Mulheres de corpo aberto, de cara lavada, de olho no olho. Porque a coragem que as move é inimiga maior da vaidade. Porque a vaidade é inimiga maior do cinema. E em tempos tão difíceis, como os nossos seguem sendo, a trajetória e a figura icônica de Gladys dão a letra; são tempos em que precisamos mais e mais das antidivas no cinema. E na vida.