Cineasta e sócio da produtora Filmes de Plástico, sediada em Contagem (MG), Maurílio Martins é categórico quando comenta sua relação com festivais de cinema. “Eu gosto de fazer filmes, de exibir filmes, de falar sobre filmes. No dia em que virar uma coisa burocrática, eu largo o cinema e vou vender cachorro-quente”.

Foi justamente em um evento desse tipo, em 2011, na cidade de Montes Claros, que Maurílio conheceu Stine Krog-Pedersen, engenheira recém-chegada ao Brasil naquela época. O encontro resultaria em casamento e no nascimento do filho Eric. Após a separação, ocorrida em 2014, o cineasta passou a dividir seu tempo entre Copenhague (onde se hospeda na casa de Stine e acompanha o crescimento do garoto) e Contagem (onde realiza seu trabalho como produtor e cineasta).

O curta-metragem Constelações, que foi exibido no ano passado em importantes festivais brasileiros, como o Janela Internacional de Cinema do Recife, o Festival Internacional de Curtas de São Paulo e o Festival de Brasília, foi fruto desse peculiar momento pessoal na vida de Maurílio, o qual ele mesmo chama de sua “fase dinamarquesa”.

Muito do desenvolvimento do roteiro se deu no intervalo de tempo em que, depois de deixar Eric na escola, Maurílio tinha um período do dia livre para escrever. A ex-mulher, de quem veio o primeiro insight para a realização do filme, acabou se tornando atriz do curta-metragem, que apresenta o breve período de convivência de uma mulher dinamarquesa (Stine) que pega carona com um brasileiro (Renato Novais Oliveira), apesar de não se comunicar com ele através do mesmo idioma.

O Cine Festivais conversou com Maurílio Martins sobre este seu novo momento profissional durante o 49º Festival de Brasília. A seguir publicamos os principais pontos da entrevista.

 

Cine Festivais: Eu queria saber especificamente como é sua relação criativa quando está na Dinamarca? Como é a sua rotina? O que muda estando lá?

Maurílio Martins: Pra mim é fundamental (trabalhar na Dinamarca) porque estabeleço lá métodos de trabalho que não teria aqui. Você está num isolamento, num país muito distinto, onde eu não tenho tantos amigos, saio menos. Isso provocou um processo de escrita mais intenso. É disparado o meu período mais criativo, não só pelo tempo disponível para escrever, mas também pela forma de enxergar o mundo.

Eu vejo Contagem de outra forma quando estou em Copenhague, e vejo Copenhague de outra forma quando estou em Contagem. Viver em lugares distintos, não ter uma casa onde passo 80% do meu tempo, isso tudo faz com que, quando estou lá, eu foque muito na escrita. Isso resultou numa série de roteiros.

É algo que me ajuda em duas frentes: aproveito o tempo em que Eric (filho de Maurílio) está na escola para trabalhar. Isso me deu disciplina: antes eu era mais disperso, ficava maturando por muito tempo antes de escrever; hoje tem um dinamismo maior entre o surgimento da ideia e o roteiro propriamente dito.

E o outro lado disso, que faz parte do meu processo criativo, é estar nesta vida, nesta função de pai, mas não sendo marido, vivendo na mesma casa, vivendo em outro país e com uma produtora hiper atuante no Brasil, na qual eu participo muito por Skype, trocas de e-mail, trocando ideias com os meninos (os sócios Gabriel Martins, André Novais Oliveira e Thiago Macedo Correia). Eu participo de muita coisa estando lá na Dinamarca, então é um trabalho que de certa maneira aguçou algumas coisas em mim, passei a ser mais observador.

Acho que o Constelações também é fruto disso. É diferente dos meus outros filmes, está em outra lógica, outro registro. Acho que já é um filme da minha fase dinamarquesa. Quando fiz o Quinze já estava morando lá, mas o Constelações é mais solto, mais real, mais condizente comigo hoje do que o Quinze.

 

CF: No seu caso e no do Adirley Queirós, há muito isso de trazer ao cinema contemporâneo brasileiro um outro tipo de lugar de fala, um outro tipo de experiência corporal na cidade. Queria que você falasse mais sobre esse corpo acostumado com o Brasil, com Contagem, chegando a esse espaço novo na Dinamarca. Que consequências essa mudança trouxe para seu entendimento de espaço e cultura?

MM: Eu tenho muito orgulho de dizer que minha ida para a Dinamarca fez florescer ainda mais a visão do meu cinema e do lugar onde eu cresci. Já tinha morado em Portugal, na Argentina, mas foi diferente a saída para um país que é uma utopia, onde tudo, ou quase tudo, funciona – a saúde, a educação… Eu moro em um bairro de classe média alta mesmo para os padrões de Copenhague.

Essa experiência aflorou muito esse olhar quase poético para coisas que antes eram ordinárias para mim. Esse retorno constante para Contagem é recheado de uma carga muito forte, eu sempre volto querendo fazer mais coisas.

Rodamos um longa-metragem (No Coração do Mundo, atualmente em pós-produção) que foi todo passado no bairro em que sempre morei (Laguna), e a ida para a Dinamarca é um pouco responsável por isso. Sempre volto com mais força, vendo com mais veemência as coisas do bairro. Eu me comprometo em ambos os lugares. Eu amo cada vez mais a minha vida na Dinamarca e amo cada vez meu bairro em Contagem. Mas não me sinto morador fixo de nenhum deles, porque estou sempre em trânsito.

Eu tô para te dizer, não sei se é uma imodéstia ou se soa pretensioso, mas, enquanto artista, eu vivo o meu melhor momento. E é muito em função disso, dessa ida e vinda constante. Eu me transformo nos dois lugares, ambos me fazem melhor.

 

CF: É interessante porque o Adirley fala também que ele percebeu a Ceilândia de outra forma depois que foi para a UnB…

MM: Tem um texto que eu escrevi e me emocionei ao escrevê-lo ao término no filme, sobre uma pichação que está lá em cima do portão da minha casa há tempos. E nesses dias, no término do processo do No Coração do Mundo, convivendo com os meninos, o Chiclete, que é o menino que pichou, ficou as cinco semanas do longa próximo da equipe. E um dia, num baile com a equipe, ele chegou pedindo para trabalhar no próximo filme e me contou do dia em que ele pichou aquilo, que foi o dia em que ele foi morar com a namorada dele. E ele pichou lá: “Chiclete & Mia.” Depois que ele me contou, eu passei a olhar para aquilo e pensei: “não vou pintar essa parede nunca, isso é a parte viva desse lugar.”

Era algo que estava ali por anos e a que eu nunca dei importância porque estava no ordinário, entre as muitas coisas que você tem no espaço em que você vive. E essa aproximação das coisas por outros prismas pode ressignificar até a pichação.

Isso é uma das coisas que mais me inspira enquanto cineasta, esse homem que vive vidas muito distintas umas das outras, mas que se desloca, porque eu tenho um filho na Dinamarca e eu preciso ficar com ele, mas também tenho uma casa e uma produtora aqui no Brasil e não posso largá-los.

 

CF: Isso deve ter estado presente na escrita do roteiro de Constelações. Como se deu esse processo?

MM: A vontade de escrever um filme sobre estrangeiros que se comunicam sem falar a mesma língua vem de uma história que a Stine me contou de uma vez em que ela foi para a Geórgia e ficou andando com um cara que não falava em inglês. Ela me contou isso e me deu vontade de fazer algo cômico, que tendia para o humor. Não tinha nada a ver (com Constelações). Mas incoscientemente isso já me afetava, porque eu já estava num lugar onde eu não falava a língua das pessoas. Então o salto disso para um roteiro dramático veio da separação. Aí veio esse texto mais pesado.

 

CF: E essa força que você consegue tirar do Renato? Acho que nos outros filmes que já tinha visto com ele (como Ela Volta na Quinta) era uma coisa de um personagem mais próximo ao que ele é na vida real, e com este personagem, agora, parece que ele se desfaz de toda aquela aura de irmão do André Novais.

MM: O Renato não entrou no filme por ser irmão do André, entrou porque tinha o perfil adequado para isso. E o resultado que ele me trouxe… Toda vez que eu assisto eu me emociono com ambos; aquilo é atuação pura. Não há improviso, está tudo no roteiro, tudo. O que há ali de maravilhoso é introjetar a incorporação, e ambos incorporaram de uma maneira que me assusta até hoje.

Então o Renato ali é o Renato ator mesmo, transformando o meu personagem numa coisa dele, dando uma força, um vigor. O jeito de andar, o corpo, é algo muito diferente do Ela Volta na Quinta. Acho que agora ele se firmou como um ator a ser cotado para vários trabalhos. Acho que está longe de ser fácil o que ele fez, ainda mais vindo de um histórico de não formação ou por estar associado a “ser irmão do André”. Agora ninguém encara mais ele assim.

 

CF: Eu queria que você falasse desses dois longas recentes em que trabalhou: No Coração do Mundo e Era Uma Vez Brasília.

MM: O Selton Mello é um fã do (curta-metragem) Contagem e do (curta) Dona Sônia Pediu Uma Arma Para Seu Vizinho Alcides. Viramos amigos por conta disso, e um dia ele veio me pedir para eu contar vários projetos para ele. Eu contei e ele me falou: “por que você não volta para esse universo do Contagem?” Aí foi surgindo a ideia de mesclar esses dois universos, escrevemos o roteiro, ganhamos o primeiro edital em 2013, ganhamos o segundo edital agora, e virou um filme muito meu e do Gabriel, em todos os sentidos, porque as histórias foram se misturando.

Escrevemos juntos, dirigimos juntos, vamos montar juntos e a história foi toda rodada lá no bairro, no nosso espaço. Voltamos com os personagens, com os mesmos atores, acrescentamos um outro tanto de coisas. E foi incrível voltar a esse universo seis anos mais maduro.

 

CF: E o Era Uma Vez Brasília?

MM: Surgiu de uma conversa minha com o Adirley (Queirós) quando eu fui pegar meu visto para a Dinamarca, em Brasília. Rodamos uma fase, três meses muito intensos. Aí eu tive que voltar para a Dinamarca e o Adirley seguiu. Você sabe, os filmes do Adirley tem um ritmo muito próprio, ele vai indo aos poucos, por etapas, e eu não pude permanecer. Virou um filme de processo. Acho justo que ele assine sozinho porque eu não pude participar desse processo por questões de vivência mesmo, eu precisava voltar ao Eric, mas é um filme lindo, eu tenho muito orgulho. Os três meses que ficamos filmando foram muito intensos. Ele se assemelha ao Branco Sai, Preto Fica nesse aspecto de ser um filme que vai acontecendo aos poucos.

 

CF: Gostaria que você falasse da sua relação com festivais. Sei que Brasília teve um papel importante na sua carreira…

MM: Brasília foi o festival em que pela primeira vez eu apresentei um filme que havia dirigido (Contagem, em 2010).Eu tinha tido uma experiência num festival universitário, em Curitiba, que nem existe mais. Mas em Brasília era uma experiência real, com debate, com público. E estrear num templo desses assim é pesado. Com o Carlão (Reichenbach) e o Inácio (Araújo) na plateia.

O Carlão abre tudo, porque ele fica fascinado com o Contagem, aí volta pra São Paulo e escreve um texto sobre o filme, passa a falar para as pessoas sobre o filme, etc. A escola que está em No Coração do Mundo é a Escola Carlos Reichenbach. Mudamos o nome. Pra mim é uma coisa muito forte, a paixão que eu tinha com o Carlão. Ele era maluco, vinha emocionado no café da manhã me abraçando e abraçando o Gabriel. E a generosidade dele… uma das pessoas mais incríveis que o cinema brasileiro já produziu.

E daí em diante foi essa experiência em festivais, tivemos muita sorte. O Quinze foi para fora do País, ganhou prêmios. Fui para Lisboa, onde eu tinha estado como imigrante ilegal anos antes, e voltei apresentando filme em festival.

E voltar a Brasília depois de toda essa trajetória, de ter tido dois filmes da produtora em Cannes já (dirigidos pelo André Novais Oliveira), e agora eu subir no palco com um filme tão pessoal… É uma coisa que eu ainda valorizo muito. Se tem uma coisa que eu nunca vou ser é blasé. Eu gosto de fazer filmes, de exibir filmes, de falar sobre filmes. No dia em que virar uma coisa burocrática, eu largo o cinema e vou vender cachorro-quente.

 

CF: São espaços de encontro…
MM: Sim, você encontra com as pessoas, convive com as pessoas. Aí vem alguém que há anos convive com você, chega e te fala: “olha, eu nunca te disse isso, mas o Quinze é o filme que eu mais amo na vida, nunca te disse isso porque sou tímida.” Então o festival é como se fosse um templo móvel, porque as pessoas se deslocam; você vê elas aqui, no Rio, na Bahia.

E não é só festival grande, não. Um dos festivais em que eu mais emocionei foi a segunda edição de um festival que aconteceu em Russas, no Ceará. Fui exibir o Quinze em um cinema sem acústica, que vem barulho de fora. Era um cinema construído na casa de um cara, etc., e foi uma das experiências mais lindas; fizeram tapete vermelho, tinha apresentação, fanfarra tocando no final.

É um espaço incrível, algo importante principalmente para os curtas, né. O longa ainda tem escape porque vai aos cinemas, mas o curta não. Passará no Canal Brasil, mas quem tem Canal Brasil? É o público de festival que vê e faz o seu filme acontecer.

Por exemplo: passar no Kinoforum (Festival Internacional de Curtas de São Paulo), acabar a exibição e já chegar mensagens na minha caixa de alguém emocionado. Aconteceu aqui em Brasília, tive que responder o cara, alguém que queria saber como foi feito; ele é de Guará, gostou do filme. Então não dá para ser blasé.

 

Leia também:

>>> Crítica sobre Constelações

 

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