“O horror no Brasil está vivo, raivoso e com os dentes afiados”, diz o crítico de cinema, ator e cineasta Cristian Verardi. Ele é responsável pela direção do curta-metragem Ne Pas Projeter, um dos três trabalhos nacionais do gênero que estão na seção Brigadoon do Festival de Sitges (Espanha), primeiro e mais tradicional evento dedicado ao cinema fantástico no mundo, que neste ano acontece entre os dias 9 e 18 de outubro.

Os longas-metragens que completam a lista (O Diabo Mora Aqui, de Rodrigo Gasparini e Dantes Vescio, e As Fábulas Negras, de Rodrigo Aragão, Joel Caetano, José Mojica Marins e Petter Baiestorf) têm em comum a busca por uma identidade brasileira. No primeiro, as atrocidades cometidas em uma fazenda durante a época da escravidão levam a uma maldição que interfere nos dias de hoje; no segundo, os episódios se inspiram em histórias do folclore brasileiro, como o Saci e a Loira do Banheiro, que ganham roupagens macabras.

“Eu acho a mitologia brasileira muito legal e com um potencial enorme para fazer coisas legais com ela. Parece que depois do Monteiro Lobato quase ninguém resolveu mexer muito com isso, e temos gerações inteiras que estão esquecendo dessas historias”, diz M. M. Izidoro, produtor de O Diabo Mora Aqui e idealizador do projeto Urbania, do qual o longa é o primeiro exemplar.

O intuito da iniciativa é explorar criativamente o folclore e as lendas urbanas brasileiras. Para viabilizar este primeiro trabalho, o produtor criou um fundo de investimento e vendeu cotas para pessoas físicas, atingindo um valor de cerca de R$ 200 mil que serviu como orçamento do filme. O plano, agora, é continuar a história com outros filmes para cinema e uma série de TV. Até mesmo graphic novels baseadas neste universo estão nos planos.

“O cinema de terror, e de gênero, historicamente é um cinema de comentário social e político. Pensando nisso, e baseado nas lendas urbanas que nós utilizamos, foi muito natural termos no filme esse lado histórico. Queremos nos apropriar ainda mais disso pros próximos projetos, pois acho que falta o uso da nossa história nas ficções e principalmente no cinema de horror”, pontua Izidoro.

De modo parecido, Rodrigo Aragão declarou à época do lançamento mundial de As Fábulas Negras, no último mês de janeiro, em Tiradentes, que tinha a intenção de realizar continuações do filme com episódios baseados em outras histórias do folclore brasileiro e dirigidos por diferentes cineastas.

 

Veja acima trailer de O Diabo Mora Aqui

 

 

Do nicho para fora

“Entrar em Sitges para mim foi como ser convidado para ir visitar a fábrica do Willy Wonka (personagem do filme A Fantástica de Chocolate), sabe? A maioria dos cineastas e dos filmes que eu admiro foram exibidos lá e ser parte da seleção é algo que só vai cair a ficha quando eu estiver lá na sala vendo o filme sendo projetado na tela”, diz o produtor de O Diabo Mora Aqui.

“Eu tinha 12 anos quando ouvi falar pela primeira vez a respeito de Sitges, e depois disso sempre acompanhei a programação do festival com entusiasmo. Grandes filmes do gênero pelos quais sou fascinado foram exibidos neste festival, como O Exorcista, Hellraiser, Evil Dead II, The Hidden”, complementa Cristian Verardi.

Indo além dos festivais de nicho, como o espanhol, os filmes brasileiros de horror têm conseguido mais recentemente espaço em eventos abertos a todos os tipos de produção, que são historicamente reticentes ao gênero.

Exemplo disso foi a exibição de Ne Pas Projeter na Mostra Gaúcha do último Festival de Gramado. O trabalho, que faz parte originalmente do longa-metragem em episódios 13 Histórias Estranhas, idealizado por Ricardo Ghiorzi, traz a história de um projecionista de cinema que encontra um rolo de filme perdido e não obedece à instrução de não exibi-lo escrita em francês na caixa, tendo assim que lidar com as consequências do ato.

“Ser exibido em um festival fora do nicho dedicado ao horror sempre é um desafio. Fiquei surpreso com a excelente recepção que o filme teve em Gramado, tanto por parte do público como da crítica. E apesar de não ter vencido nenhum prêmio, muitos veículos citaram o filme como um dos destaques do festival. Para mim foi a prova de que, não apenas o gênero, mas o gosto do público também é subestimado pelos festivais”, diz Verardi.

Nesse quesito, o precursor talvez tenha sido Rodrigo Aragão. Apontado pelo próprio José Mojica Marins, o Zé do Caixão, como seu sucessor, Aragão surgiu no cenário nacional com a sua trilogia de longas-metragens constituída por Mangue Negro, A Noite do Chupacabras e Mar Negro, sendo que este último conseguiu espaço no Festival do Rio de 2013. No início deste ano, a exibição de As Fábulas Negras na Mostra de Cinema de Tiradentes também foi significativa para esse processo de abertura dos festivais aos filmes de horror.

“O cinema de gênero, nos últimos anos, está conseguindo sim transpor a barreira do ‘filme B’, se tornando mais apreciado pela crítica (pois sempre foi um querido do público). Já o gênero no Brasil é outra história, pois estamos falando de uma arte que foi deixada de lado por muitos anos e que, hoje, começa a se reconstruir. Os festivais abrirem as suas portas é só o primeiro passo de uma longa caminhada para o reconhecimento do valor deste estilo cinematográfico; para chegarmos ao circuito comercial, primeiro os órgãos que regem e financiam o cinema no nosso País devem aceitar o gênero como parte importante da cinematografia nacional. Assim haverá a possibilidade de competir técnica e financeiramente de igual para igual com outros tipos de filmes que o País produz e chegam ao grande público através das telas de cinema”, analisa Aragão.

“Já fui mais niilista com relação a isso, mas hoje em dia consigo visualizar, num futuro não tão distante, a existência de uma cena de cinema de horror nacional estruturada e comercialmente funcional. É preciso que as distribuidoras, e o circuito exibidor voltem seus olhos para o gênero e percebam suas inúmeras possibilidades”, acrescenta Verardi.

 

Joel Caetano (e), José Mojica Marins (c) e Rodrigo Aragão (d) no set de As Fábulas Negras

 

“Cinemão” e “Renascença”

Na época em que cursou Cinema na Faculdade Armando Álvares Penteado, eram poucos os alunos que, como Rodrigo Gasparini, apreciavam realmente o gênero horror. O gosto por esses filmes foi um dos elementos que levou à amizade com Dante Vescio durante a época dos estudos, que se transformou agora em parceria na direção.

Antes de O Diabo Mora Aqui a dupla realizou um curta de três minutos chamado M for Mailbox, que obteve grande repercussão na internet por concorrer a uma vaga na antologia de horror ABCs of Death 2, terminando em terceiro lugar. O trabalho serviu como preparativo para que os diretores formulassem o conceito do longa-metragem.

“A gente queria fazer ‘cinemão’. Sentimos que muitos dos filmes de terror brasileiros pecam na técnica cinematográfica, como narrativa, enquadramentos, montagem e atuações, e isso faz com que os filmes não tenham ritmo e não empolguem a criança sedenta por loucura dentro de nós. Então nossa preocupação sempre foi ter um primor técnico em todas as áreas do filme, mesmo sendo uma coisa muito difícil. Acho que muitas vezes essa ‘fórmula’ do gênero acaba não sendo explorada por falta desse primor técnico, e aqueles que possuem esse primor técnico muitas vezes não abraçam o gênero terror”, avalia Gasparini.

Assim como ele, que começou nos curtas-metragens, há vários outros artistas com trabalhos de destaque no gênero que pretendem realizar ou já fizeram algum longa-metragem. São, na grande maioria, diretores que vem produzindo seus trabalhos sem auxílio de editais ou de incentivos fiscais – para se ter uma ideia, o primeiro edital que Rodrigo Aragão ganhou teve o seu resultado divulgado neste mês de outubro e garantiu suporte de R$ 629 mil para a produção de seu quarto longa-metragem solo, que se chamará Mata Negra.

“Fazendo um mapeamento rápido de alguns diretores dedicados ao horror, temos em São Paulo Dennison Ramalho (Amor Só de Mãe, Ninjas), Joel Caetano (Encosto, Judas) e Kapel Furman (A Percepção do Medo); na Paraíba, Ramon Porto Mota (O Desejo do Morto); em Curitiba, Paulo Biscaia (Nervo Craniano Zero); no Espírito Santo, Rodrigo Aragão (A Noite do Chupacabras, Mar Negro); em Santa Catarina, Petter Baiestorf (Zombio 2- Chimarrão Zombies); no Rio Grande do Sul, Fernando Mantelli (Rigor Mortis), Lucas Sá (Nua Por Dentro do Couro) e Felipe Guerra (Extrema Unção, O Estripador da Rua Augusta)”, enumera Cristian Verardi.

Muitos desses nomes podem estar presentes nos próximos anos em festivais, de gênero ou não, e terão a responsabilidade de mostrar se esse é realmente o principal momento do gênero no País.

“Eu acho que estamos vivendo uma ‘Renascença’ do terror brasileiro. Além desses filmes que estão em Sitges, sei de mais produções que estão vindo nos próximos dois anos de todos os cantos do País e até de fora dele. Estamos com um time de realizadores muito forte e que só tem a crescer no futuro. Não acredito que a onda vá virar uma marolinha, pois os filmes de terror são aqueles que podem ser feitos tanto com um real, quanto com um milhão. É só ter uma câmera e um quarto escuro, que se tem um filme de terror. Então, mesmo com crise e todo o resto, o cinema de terror vai persistir”, aposta M. M. Izidoro.

 

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