Nos últimos anos grupos de mulheres que são minorias em espaços profissionais e de poder em diferentes campos de atuação no audiovisual começaram a se reunir para mapear a si próprias e para desnaturalizar certas ideias e práticas que perpetuam desigualdades. Iniciativas como o Mulheres Negras no Audiovisual, o Coletivo das Diretoras de Fotografia do Brasil (DAFB) e o Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema têm em comum, primeiramente, a necessidade de afirmar algo muito trivial, mas ainda necessário quando se atenta para um panorama nada animador em termos de representatividade: “nós existimos”.

No caso do Elviras, o grupo começou a nascer em 2016, por meio de encontros organizados durante eventos de cinema como o Festival de Brasília e a Mostra de São Paulo. A apresentação oficial do coletivo se deu em mesa de debate realizada no último mês de janeiro, na 20ª Mostra de Tiradentes.

O nome do grupo presta homenagem a Elvira Gama, que foi a primeira mulher no Brasil a escrever sobre a imagem em movimento, entre 1894 e 1895, em uma coluna chamada “Kinetoscópico”, no Jornal do Brasil.

Composto atualmente por 82 mulheres de todas as regiões do Brasil, o Elviras tem como objetivo declarado “reverter o quadro atual, no qual os grandes veículos privilegiam nomes masculinos para compor os seus quadros de críticos da sétima arte; os debates públicos e os júris de festivais costumam ser majoritariamente compostos por homens; e há pouco espaço destinado às mulheres dentro das próprias associações de profissionais da área”.

Entre as atividades que serão desenvolvidas pelas Elviras estão a distribuição de materiais acadêmicos sobre o assunto, discussões sobre a produção audiovisual dentro e fora do Brasil, troca de experiências profissionais e a criação de materiais para aprimoramento profissional de suas participantes, entre outras.

Durante a 20ª Mostra de Tiradentes, logo após a mesa de apresentação do coletivo, o Cine Festivais conversou com Ivonete Pinto, crítica de cinema e professora universitária. Entre os assuntos da entrevista estiveram, além da sua trajetória pessoal, a inserção da mulher na crítica e em outros campos do cinema e o papel das universidades na perpetuação de estereótipos profissionais.

É possível assistir à entrevista no vídeo abaixo. A seguir, também publicamos a transcrição da conversa.

 

 

Cine Festivais: Para começar, gostaria que você comentasse brevemente como se deu a sua trajetória até se tornar crítica de cinema e, posteriormente, professora.

Ivonete Pinto: Eu venho do Rio Grande do Sul, estado que tem o cineclube mais antigo do Brasil e possui um ambiente muito cinefílico. Eu entrei no cinema pela cinefilia, por gostar de ver filmes. A passagem disso para escrever sobre filmes foi um pouco mais demorada. Inclusive relutei um pouco a me considerar crítica de cinema.

Eu fiz durante cinco anos comentários sobre cinema em uma rádio, e quando me chamavam para algum festival e vinha ali o crédito “crítica de cinema” eu dizia: “não, eu sou comentarista de cinema”. Então demorou um pouco para eu assumir isso. Só mesmo com a formação um pouco autodidata em cinema – já que eu não fiz curso de Cinema, e sim Jornalismo – que eu fui me sentindo mais à vontade para aceitar a denominação de crítica de cinema.

Depois eu passei a escrever regularmente para alguns lugares. Há 15 anos eu escrevo para a Teorema, que é uma publicação impressa do Rio Grande do Sul, e também para outros lugares. Faço curadoria e dou aula de crítica de cinema na universidade (Universidade Federal de Pelotas), e isso hoje, claro, é uma coisa muito normal.

Depois veio também a necessidade, como uma demanda mesmo, de se criar uma entidade representativa dos críticos no Rio Grande do Sul. Então eu mobilizei ali os amigos e fui a primeira presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul, a Accirs. Depois um pouco, na carona disso, lá em Gramado começaram as primeiras conversas para se criar uma Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), que até então não existia. Então é esse o meio em que estou inserida.

 

CF: Em que momento a questão da baixa representatividade das mulheres no campo da crítica de cinema passou a te incomodar?

IP: A inquietação de ter um número x ou y de mulheres é muito mais recente. Acho que eu passei a maior parte do tempo me preocupando em organizar os críticos. Tive uma coluna semanal num jornal muito masculino, que era a Gazeta Mercantil. Eu era a única mulher que escrevia sobre cinema num veiculo impresso no Rio Grande do Sul, porque naquela época não tinha internet, não tinha os blogs… e eu vejo com muito otimismo até esse surgimento de críticas que têm a sua atividade nos blogs, na internet.

Se por um lado a gente vê que existe um amadorismo – não até no sentido pejorativo, mas uma coisa amadora mesmo de escrever sobre cinema -, você abre seu blog, você escreve sem ninguém dar uma orientação e chama de crítica de cinema aquilo, ok. Se existe isso, há também um lado muito positivo, que é o do espaço mesmo, da possibilidade de você concretamente se informar sobre cinema e escrever sobre cinema. Você cria o teu espaço. Não depende mais de uma coluna de um jornal, do convite de um editor… As coisas eram muito mais difíceis, hoje são mais fáceis.

 

CF: Falando agora sobre a criação do coletivo Elviras, gostaria você comentasse a importância e os objetivos do grupo.

IP: Nesse ambiente digital de facilidade (para se publicar textos), o Elviras tem uma importância grande, porque muitas meninas de 20 e poucos anos escrevem sobre cinema e querem se inserir nesse ambiente que elas acham muito masculino, no qual elas acham que não são muito bem-vindas, em que elas se sentem deslocadas.

Algumas até acho que têm problemas de formação mesmo. Você vai ler um texto e é um texto frágil. Está cheio de homem escrevendo com texto frágil, mas nós estamos falando das meninas agora. E aí o Elviras pode ajudar nisso, nesse empurrão que pressupõe também uma formação. A gente também quer ajudar na formação dessas meninas.

 

CF: Como você avalia o papel dos festivais com relação às demandas por maior representatividade, tanto nos filmes selecionados quanto nos participantes de mesas de debate nos dias de hoje?

IP: Acho que os festivais, assim como vários outros segmentos da sociedade, estão acordando agora para isso. Está todo mundo meio que tomando consciência. Alguns segmentos, com uma resistência muito maior, não enxergam o problema, acham que “ah, mas peraí, os espaços não estão fechados para as mulheres, é uma questão meritória: se elas escrevem bem, elas vão ter garantidos esses espaços”. A gente sabe que não é bem assim.

Então a gente precisa empurrar um pouco a porta e dizer que cabe aos festivais, que têm uma importância tão grande no Brasil, também abrir na sua programação espaço para esse tipo de debate. Alguns já fazem, já se movimentam um pouco mais. Tiradentes em especial. É a primeira vez que eu venho para cá, mas sempre acompanhei muito, sei do pioneirismo, do quanto ele representa na vanguarda do cinema brasileiro, e eu acho que ele está saindo na frente nesse sentido também.

Outros festivais também estão levando esses debates, mas acho que de uma maneira muito pequena, quase invisível. Aqui (na 20ª Mostra de Tiradentes) você olha para a programação e enxerga a preocupação. Essa mesa da Elviras está inserida num pensamento curatorial que envolve filmes, mesas de debate, número de mulheres que estão sendo convidadas. Não é perfeito né, pode-se reclamar daqui e dali, mas acho que a gente deve reconhecer que Tiradentes está fazendo a sua parte nesse cenário.

 

CF: Muitas vezes, quando se questiona a respeito da baixa representatividade de filmes de mulheres e minorias em festivais, usa-se o argumento de que a qualidade deve ser utilizada como critério principal para a seleção, quase sempre sem complexificar as diversas variáveis que estão envolvidas nessa questão.

IP: É complicado falar de uma maneira genérica, porque cada festival tem o seu perfil, a sua identidade, seus curadores que querem isso ou aquilo para dar visibilidade para o seu festival. A gente tem que pensar e tentar enxergar os filmes que estão sendo inscritos. É a partir dos inscritos que a gente vai ver se as curadorias estão conseguindo enxergar valor nesses filmes de mulheres, de negros, e tal.

É isso que a gente está tentando levantar no Elviras, fazer um levantamento sobre número de inscritos, quem são, que filmes são esses. E efetivamente, digamos, é muito fácil perceber como é que se trabalha com isso. Tem 600 curtas inscritos num festival como esse aqui. Quantos são dirigidos por mulheres? Quantos são dirigidos por negros? Aí você vai ver os filmes selecionados, e eles precisam minimamente corresponder a isso. Porque se de 500 inscritos tiver 300 dirigidos por mulheres, não pode ter um percentual que fuja muito desse percentual inscrito. Se isso ocorrer, bom, aí temos um problema ou na chamada qualidade dos filmes ou na capacidade da curadoria de enxergar esse mundo. Enxergar as mulheres.

Acho que alguns curadores com pensamentos mais retrógrados, mais conservadores, ainda não estão se dando conta, mas aos poucos – eu sou otimista – elas vão se dando conta, e se não se derem elas vão perder o trem da história. Os festivais vão perder a sua importância se não se abrirem para isso. Festival de “clube do bolinha” não dá, né? E as mulheres precisam estar organizadas para mostrar que “olha, aqui essa mesa está com cinco homens e uma mulher, por quê?” Eventualmente tem uma explicação, mas no geral não se tem uma explicação satisfatória sobre essas formações.

 

CF: Aproveitando sua experiência como professora, gostaria que você falasse qual é a importância de estudar também referências novas, que não apenas os cânones quase que integralmente masculinos?

IP: Eu dou aula há onze anos, estou na Universidade Federal de Pelotas há oito, e vejo a cada ano a situação indo mais para esse lado (de mudança de paradigmas). Mas numa cobrança muito dos alunos mesmo. Não tenho o menor problema em admitir que eu fui acordada nos últimos tempos mais pelos alunos do que pelos meus colegas professores em relação a esses problemas de participação.

Eu tenho uma militância, uma preferência em termos acadêmicos por trabalhar com cinematografias periféricas. A representação e a representatividade de mulheres nas escolhas dos filmes que eu mostro em aula não é uma preocupação maior. A minha preocupação maior é com as cinematografias periféricas. Dentro delas que eu fico encaixando os olhares das mulheres diretoras. E a gente tem em países como Turquia ,Tunísia, países até com uma tradição religiosa machista, cinematografias muito levadas por homens. Então eu tento, além de ir para a periferia do cinema, ver dentro dessa periferia o que é periférico ali dentro. E não sou só eu quem segue essa linha, estou sintonizada com algumas curadorias de festivais da Europa.

A gente tenta trazer isso para dentro da universidade, mas nem todos os professores estão ligados nisso. Alguns têm uma visão muito tecnicista da coisa. “Ah, o professor de fotografia só pensa nas questões de enquadramento e só traz exemplos de filmes feitos por homens”. Ainda não passa pela cabeça dele que poderia também trazer exemplos – poucos ainda, no caso da fotografia – de filmes de mulheres. Mas acho que as pessoas estão acordando pra isso.

 

CF: Como você percebe dentro do ambiente universitário a questão da perpetuação de certos estereótipos na formação de equipes de cinema, como aquele que associa as mulheres unicamente a funções como produção e direção de arte. Esse tipo de atitude ainda é vista nas universidades? Como isso se dá na prática?

IP: Na nossa universidade isso é hoje uma questão importante. Está havendo conflitos nesse sentido de as meninas trazerem para o colegiado dificuldades de relacionamento com os meninos. E a gente tem é que ajudar, dar suporte para essas meninas batalharem pelos seus espaços. Não é também uma coisa que o professor vai decidir “olha, nesse filme aqui nós vamos dar a direção para uma mulher, porque precisamos ter cotas aqui”. A gente não vai trabalhar com isso.

O que eu digo é trabalhar na promoção de uma autoestima dessas mulheres, de uma formação e de uma cabeça capaz de ir para o enfrentamento mesmo. Se a menina tem uma ideia para um filme e está batendo de frente com o menino – ele quer ser diretor da ideia que foi dela, enfim -, ela tem que argumentar, tem que fazer isso da maneira mais racional possível, e menos passional. E comprovar e demonstrar porque que ela é mais capacitada para a direção daquele filme x.

Então eu acho que os professores precisam sim estar atentos a aquilo que está acontecendo e ajudar. Os conflitos são naturais. Tem a questão do espaço, né. Os meninos foram educados a terem os seus espaços e a brigarem por esses espaços, às vezes de maneira não muito ética, inclusive não importando como, berrando… É uma demonstração de poder dos meninos que para eles é muito cultural, vem da família esse tipo de briga. E as meninas precisam aprender a lidar com isso.

 

CF: Saindo da universidade e vindo para a produção de filmes, eu queria saber de você qual o melhor caminho para incentivar a produção de mulheres e de minorias.

IP: Nos editais de roteiro que eu participei (na comissão de seleção) havia por parte do patrocinador a preocupação com uma distribuição mais equânime, regionalmente falando. Tinha algo que pontuava sempre acima de qualquer coisa que era a qualidade do roteiro e do projeto, a gente sempre cai na questão meritória. Se você convida para as comissões desses editais pessoas que claramente já tem uma preocupação com isso (representatividade/representação), acho sim que vai ter um olhar mais sensível.

Tem sempre a questão “por que estou escolhendo esse roteiro aqui?” É porque ele é bom. “O que que é bom?” Às vezes tem um grau de subjetividade muito grande, e é complicado, mas ao mesmo tempo é muito debatido nessas comissões, tem etapas da leitura individual, depois vai para a discussão coletiva. Por isso é importante que na formação desses editais você tenha um grupo heterogêneo, que de alguma maneira represente a própria sociedade. Não pode botar só homem, só mulher; se for pensar em questão LGBT, não pode botar só gay.

Nesses editais a desregionalização é importante; depois a questão de gênero, não pode só escolher projetos de homens, se não vai estar reproduzindo aquilo ali o tempo todo. É preciso ter o olhar da pessoa um pouco mais sensível, que vai dizer “mas peraí, vou prestar um pouco mais de atenção nessa mulher”. Você não está fazendo uma cota com isso, mas está garantindo que ela vai ser vista, que não vai ficar invisível.

 

CF: Em termos de editais há uma discussão que você acabou de citar, que também vem pro campo da entrada na universidade que é a questão da cota. Você seria a favor de que uma certa porcentagem de filmes escolhidos em editais fossem direcionadas a certo grupo étnico ou de gênero?

IP: A gente tem uma discussão, uma demanda muito urgente no Brasil, porque ela representa uma distorção histórica muito grande, que é a do negro. Eu já tive muitas duvidas com relação a cotas para entradas de estudantes, até partindo de alguns negros militantes que são contra as cotas, mas hoje eu posso te dizer com segurança que eu sou absolutamente favorável às cotas. As cotas sociais – para o sujeito que não tem como pagar – e as cotas para negros, porque graças a elas eu estou vendo negros nas salas de aula, e eu não via isso antes.

Parece que é preciso então realmente ter essa cota para que a sala de aula represente um pouco mais a sociedade. Se na nossa sociedade um percentual grande é de negros, por que na sala de aula não tem? Negro não quer fazer cinema? É claro que quer. E agora a gente está vendo aos poucos: é um numa turma, são dois na outra… é pouco ainda, mas é um começo. Então sou realmente favorável.

 

CF: E com relação às cotas nos editais?

IP: Aí eu acho mais complicado, mas acho que pode se discutir algum formato. Mas eu acho que se a base que está na formação permitir que você tenha um número maior de negros produzindo cinema, não vai ser necessário na etapa posterior, que é quando ele já está concorrendo a editais, ele precisar ter a cota, porque ele já estará em um número melhor para disputar no meritório, na qualidade. Então por isso eu penso muito estrategicamente que a educação, que a formação, no caso dos cursos de cinema, atente para isso.

 

*O repórter viajou a convite da organização do festival