Nas falas que realizou para o público e para a imprensa durante sua estada em Recife o ator Rodrigo Santoro enfatizou a importância dos prêmios recebidos pelo filme Bicho de Sete Cabeças (direção de Laís Bodanzky) na edição de 2001 do Cine PE. Naquela ocasião o longa-metragem já havia sido exibido em outros festivais, como o de Brasília, de onde também saiu consagrado com diversos prêmios, incluindo Melhor Filme. Contudo, a experiência que teve na capital pernambucana apresentando o seu primeiro trabalho como protagonista em longas-metragens o emociona até hoje, como ficou nítido no discurso que proferiu na noite deste sábado (2), no Cinema São Luiz. Desta vez, a fala era para agradecer a homenagem oferecida pelo 22º Cine PE.

Também presente no elenco de Bicho de Sete Cabeças, no qual interpretou a mãe do personagem de Rodrigo Santoro, a atriz Cássia Kis foi homenageada pelo festival no dia anterior, recebendo o troféu das mãos do ator Gabriel Leone. No dia seguinte, ela foi a responsável por entregar a homenagem a Santoro.

“Depois de 40 anos de profissão e 60 anos de vida, o que eu considero mais importante é a beleza. Sem beleza não tem sentido. Nós artistas precisamos da beleza que é o amor. É só quando fazemos as coisas de verdade que elas acabam tendo sentido. E dói. Mas a vida dói. A vida é um drama, não uma piada”, disse Cássia em seu discurso na noite de sexta (1º).

Assim como ela, Rodrigo participou de entrevista coletiva na qual refletiu sobre sua trajetória profissional. Ele lembrou de filmes que tiveram exibições em festivais internacionais, como Abril Despedaçado (direção de Walter Salles) e Carandiru (direção de Hector Babenco), e apontou esse momento como responsável pela abertura para trabalhos posteriores em produções estrangeiras.

Nome marcante da produção autoral brasileira na primeira década de 2000, Rodrigo não tem trazido títulos desse tipo ao seu currículo há um bom tempo. As produções independentes nacionais mais marcantes em que ele atuou na segunda década deste século foram lançadas em 2011: Meu País, de André Ristum, e Heleno, de José Henrique Fonseca. O ator, que nos últimos anos realizou trabalhos nos EUA, com maior destaque para a série Westworld, argumenta que tal fato é algo circunstancial.

“Eu não diria que perdi a oportunidade [de trabalhar com diretores brasileiros que estrearam em longas nos últimos anos]. Heleno foi um projeto muito desejado, no qual também me aventurei como produtor. Depois disso tive alguns projetos para fazer no Brasil que acabaram não acontecendo. Eu não senti que estava perdendo esse momento do cinema nacional, até porque estou sempre muito aberto, conversando com meus amigos diretores, lendo coisas”, conta, apontando que ficou interessado em trabalhar com Gabriel Mascaro após assistir a Boi Neon, chegando a entrar em contato com o diretor para vislumbrar possíveis parcerias.

“Se o filme [com cineastas da geração mais recente do País] não aconteceu ainda é porque não é chegada a hora dele, mas eu continuo aguardando pacientemente e continuo com apetite para essas produções. Faço muitos filmes de primeiros diretores. Foi assim com Bicho de Sete Cabeças, Meu País, Dominion, Un Traductor. Penso projeto a projeto, e continuo aberto a novos trabalhos. Algumas coisas [de cineastas nacionais] me chegaram e eu confesso que não tive interesse em fazer, e nas que eu queria fazer entraram mil variáveis que impediram essas produções de acontecerem”, conclui.

 

*O repórter viajou a convite do 22º Cine PE