Em um momento em que debates sobre representatividade deixaram de ser exceções em festivais de cinema, uma demanda comum com vistas a um avanço maior é a ocupação equânime dos espaços de poder dos eventos. Indo ao encontro de seu tempo histórico, o 6º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, que acontece de 7 a 15 de junho, contou com uma equipe exclusivamente feminina na programação dos curtas-metragens desta edição. Participaram desse processo Marisa Merlo (também coordenadora do grupo), Carla Italiano e Carol Almeida.

Aluna doutoranda na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com foco na pesquisa sobre a relação entre cinema e cidades, Carol Almeida escreve há mais de 15 anos sobre cinema. Nesta edição do Olhar de Cinema, ela ministrará a oficina “Para além do Teste Bechdel: a representação das mulheres no cinema”, que pretende dar um panorama de como a presença da mulher no cinema tem sido lida não apenas por uma cinefilia historicamente machista, mas também pelo pensamento feminista.

“Gosto dessa ideia de usar a expressão ‘olhar feminino’ nesse lugar de provocação de que devemos ter ‘outros’ olhares sobre o cinema, olhares que desloquem posições bem estabelecidas dos sujeitos e objetos do movimento e tempo cinematográficos”, comenta a pesquisadora.

Em entrevista por e-mail ao Cine Festivais, Carol Almeida falou sobre o processo de programação dos curtas-metragens do 6º Olhar de Cinema e a respeito do debate sobre modos de representação no audiovisual.

 

Cine Festivais: No momento atual, por decorrência de uma onda feminista que influencia múltiplos setores da sociedade, tem sido comum que os festivais de cinema pautem questões de representatividade, mas que isso permaneça geralmente na “antessala” dos eventos, ou seja, apenas nas mesas de debate. Entretanto, há uma disparidade de gênero evidente nos espaços de curadoria, o que torna notável o fato de a equipe de programação dos curtas do Olhar de Cinema tenha sido formada exclusivamente por mulheres. O quanto essa decisão pode, como disse Amaranta Cesar em entrevista ao Cine Festivais, “afetar efetivamente todo o pensamento de um festival”?

Carol Almeida: Como você bem frisou, a pauta feminista nos festivais de cinema – e em qualquer outro evento que venha a discutir o cinema – ainda é posicionada na antessala dos eventos, como se a ocupação desse espaço ainda fosse uma concessão cedida pelo dono da casa/narrativa, leia-se, o homem branco. Então, nesse primeiro momento, é natural que esses eventos organizem mesas e apresentações que, naquele cantinho de fundo, num horário não tão ‘nobre’, venham a ‘representar’ uma preocupação em contemplar isso que, a princípio, parece ser uma demanda do momento. Mas a questão é: 1) não é uma demanda do momento e 2) ao abrir a porta para que se conheça a antessala do espaço, se abre a porta também para todos os outros ambientes da casa.

Não acredito que essa seja apenas uma onda e que, alguns festivais mais adiante, esqueçamos ou aliviemos a luta pela paridade nas narrativas. Por isso, quando Amaranta fala que essas medidas, que agora são pontuais, podem “afetar efetivamente todo o pensamento de um festival”, é porque cada debate, cada mesa, palestra e oficina vão inevitavelmente, a partir de agora, contagiar a curadoria, a crítica e o fazer cinema, a ponto de não mais serem discussões gentilmente ‘cedidas’, mas discussões sem as quais não se pode mais pensar o cinema. Acredito que, mais do que uma onda, o debate sobre a representação da mulher, das pessoas negras, da comunidade LGBTQ é o ponto de onde não se pode retornar.

 

Diante de uma maior inclusão de mulheres em espaços de poder, uma ideia que costuma pairar (e ser refutada) é a do “olhar feminino” como algo uniforme. Falando em relação à sua experiência pessoal, como este processo de programação dos curtas do Olhar de Cinema ressignificou a ideia de fazer curadoria enquanto mulher? O que você acha que a repetição de experiências semelhantes a esta do comitê de curtas do Olhar poderia trazer para outros espaços de poder (festivais) em termos artísticos?

Acho interessante começar a falar sobre a ‘polêmica’ expressão “olhar feminino” a partir daquilo que, teoricamente, seria oposto a ela: o “olhar masculino”. E o que viria a ser o “olhar masculino”? O cinema em si. O que quero dizer é que, durante mais de um século, o cinema foi levado ao status de arte pelos homens que definiram suas premissas. E entre essas premissas está o fato de que o amor pelo cinema deveria ser consubstancial ao amor pelas mulheres. Isso não sou eu quem fala, é Antoine de Baecque, no seu referencial livro “Cinefilia”. O que ele quis dizer é que o tesão pelo cinema, por fazer e pensar esse cinema, deveria passar necessariamente pelo tesão que esse olhar masculino teria pela figura da mulher e por situá-la no cinema apenas enquanto objeto desse olhar (e não sujeito dele). Não apenas cineastas e críticos homens, como várias mulheres viriam a reproduzir (e ainda reproduzem) essa dinâmica tantas e tantas vezes, porque a linguagem cinematográfica, se imaginava, pressupunha esse olhar.

Corta para uma masterclass dada no ano passado no Festival de Toronto, quando a diretora Jill Soloway fez uma apresentação chamada “o olhar feminino”. Com essa expressão ela tentava dar conta não exatamente de um olhar da mulher, mas essencialmente de qualquer olhar – feminino, negro, indígena, gay, lésbico – que não fosse uma reprodução desse “olhar masculino” que, durante mais de um século, cristalizou o que viria a ser a arte cinematográfica.

Gosto dessa ideia de usar a expressão “olhar feminino” nesse lugar de provocação de que devemos ter “outros” olhares sobre o cinema, olhares que desloquem posições bem estabelecidas dos sujeitos e objetos do movimento e tempo cinematográficos. Tudo isso para dizer que, pelas conversas que tivemos durante o processo de seleção dos filmes, tenho certeza de que esse “olhar feminino”, no sentido de deslocamento e ruptura, estava presente em todas nós. E não porque éramos todas mulheres. Mas porque o debate sobre outros modos de ver estava atravessado na gente.

 

Geralmente as experiências com equipes de seleção exclusivamente de mulheres estão atreladas a algum nicho (casos do Fincar e do Com Mulheres). No Olhar de Cinema não há esse direcionamento prévio sobre a questão da representatividade (filmes de realizadoras) e da representação (filmes sobre mulheres). Como este fato trouxe desafios diferentes para o processo de seleção? Mirando para os curtas selecionados por vocês para o Olhar, o quanto e como aparece nos filmes uma preocupação com os modos de representação de mulheres e minorias?

Como as equipes de seleção formadas exclusivamente por homens ainda se mantêm como regra, o desafio, ao menos para mim, era somente me habituar à ideia de que, pela primeira vez, não havia nenhum homem no grupo de debate ou de que, mais frequente, eu não era a única mulher no grupo de debate. Ou seja, não chegou a ser exatamente um desafio, mas uma alegria mesmo.

O processo de seleção dos curtas foi atravessado por isso que a Amaranta fez questão de frisar em Tiradentes, ou seja, pela tentativa de realmente escutar e ver aquelas e aqueles a quem não se acostumou a escutar e ver. Isso, no entanto, não significa que essa era a força motora da seleção. A força motora de qualquer seleção de um festival de cinema deve ser a possibilidade que os filmes selecionados têm em romper, provocar, deslocar o/a espectador/a de um lugar de conforto e apatia. O fato de estarmos (ou tentarmos estar) atentas às questões da vida, ou seja, às questões sobre feminismo, representação racial e sexualidade foi uma ferramenta, mas não uma cláusula, para chegarmos aos filmes que cumpriam, ao menos no nosso olhar, com essa energia de provocação própria do cinema.

 

No nome da oficina que você dará no Olhar de Cinema está implícita uma preocupação de colocar em pauta não apenas a representatividade (medida por testes como o de Bechdel), mas principalmente os modos de representação de personagens femininas no cinema. Poderia comentar brevemente sobre a bibliografia e a filmografia que você estudou para formatar o curso? Como esse estudo impacta na sua atividade como programadora?

A oficina nasceu, de fato, com essa preocupação pela ausência de representatividade e, por isso, ela foi pensada desde o início para que, paralelo a uma iniciação teórica sobre a crítica fílmica feminista, se criasse um debate sobre a produção de diretoras que são atravessadas por esse pensamento feminista.

Portanto, enquanto na base teórica trabalho com pensamentos de autoras como Laura Mulvey, Mary Ann Doane, bell hooks, Teresa de Lauretis e Judith Butler, no debate sobre como essa representação se dá no cinema minha intenção não é mostrar o quão machista podem ser as filmografias de diretores que aprendemos a admirar, mas o quão feminista pode ser o cinema de mulheres que tiveram que experimentar na linguagem para desconstruir o tal “olhar masculino”, de forma que trabalho com cenas de filmes de Chantal Akerman, Agnès Varda, Julie Dash, Lúcia Murat e Naomi Kawase para articular texto e imagens.

Pensar essa oficina e, particularmente, os diálogos que são criados durante sua realização, contribuíram e contribuem bastante para meu pensamento crítico sobre o cinema e, por tabela, para qualquer atividade, incluindo a de programadora, relacionada ao cinema.

 

Com relação à representatividade, verifiquei que três dos dez filmes da mostra competitiva de curtas (30%) são dirigidos por mulheres, número semelhante ao de curtas dirigidos por mulheres na mostra Outros Olhares. Esta porcentagem esteve presente nas discussões que vocês tiveram em algum estágio do processo de programação?

É mais do que natural que todos os debates que têm acontecido sobre a questão da representatividade da mulher na posição de direção (mas também de roteiro) dos filmes passem por nós, mas, como já escrevi antes, não foi esse o nosso ponto de partida. Não se chegou a nenhum tipo de acordo prévio sobre que proporção de filmes seria interessante dar a curtas dirigidos por mulheres. No entanto, o simples fato de que, mesmo procurando estarmos atentas às imagens que estão em jogo e que sentidos elas operam, chegamos a apenas 30% de curtas dirigidos por mulheres, reflete uma estrutura muito maior, em que, no total de inscritos, o número de diretoras mulheres ainda é absolutamente desproporcional ao número de diretores homens.

 

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*A foto acima é do filme Selva, de Sofía Quirós, selecionado para a mostra competitiva de curtas-metragens do 6º Olhar de Cinema