A possibilidade de cursar matérias em outros cursos durante a formação em Arquitetura e Urbanismo na Universidade de São Paulo aproximou Brunna Laboissière do campo do audiovisual. Isso se deu primeiro pelo contato com a fotografia analógica e, mais à frente, pelo interesse pelo terreno documental.

Seu primeiro longa-metragem como diretora – o documentário Fabiana, que recebeu o Prêmio do Público o 7º Olhar de Cinema – começou a ser gestado durante uma oficina oferecida pelo Ateliers Varan, associação fundada nos anos 80 pelo francês Jean Rouch.

“Conheci a Fabiana na estrada em uma das vezes em que estava viajando de carona. Na época eu já gostava de documentário e fiquei com a ideia de fazer um filme com ela. Até que surgiu a oportunidade de fazer o curso do Ateliers Varan, em São Paulo. Eles pediam um pequeno projeto e um teaser. Foi nesse momento que voltei a encontrar a Fabiana”, explica Brunna.

As imagens que aparecem no filme são aquelas feitas em uma viagem posterior, que durou 28 dias, a última feita por Fabiana profissionalmente antes de se aposentar. O trabalho foi viabilizado a partir do edital Rumos, do Itaú Cultural.

Em longa conversa com o Cine Festivais durante o Olhar de Cinema, a diretora Brunna Laboissière falou sobre o processo de realização do documentário Fabiana. Leia a seguir os principais trechos da conversa.

 

Cine Festivais: Você conheceu a Fabiana na estrada, por acaso. Queria saber se esse hábito de pegar caronas era uma necessidade ou uma busca sua por novas experiências?

Brunna Laboissière: Tinha um pouco de necessidade, porque eu cursava a universidade em outra cidade e vivia em moradia estudantil, mas o principal era uma ideia de que o caminho para se chegar a um lugar é tão importante quanto estar naquele lugar. Nas vezes em que viajei de carona as pessoas sempre contavam histórias do caminho em que a gente estava passando. Talvez seja por isso que eu nunca achei pesado viajar de carona. Podia passar quatro, cinco dias na estrada, mas estava conhecendo pessoas e histórias, e achava isso muito interessante.

 

O que você acha que mais contribuiu para a sua identificação com a Fabiana?

Primeiro a questão da mobilidade, de não haver uma residência fixa. Acho muito interessante essas pessoas que vivem de uma forma cigana. E a outra era essa questão de ser mulher na estrada. Quando eu comecei a pedir carona tinha muito esse sentido, “eu também posso pedir carona”. Aí eu vi a Fabiana na estrada, uma mulher trans, com uma série de desafios, vivendo a vida dela independentemente do que o mundo diz que pode ou não pode… Me pareceu muito instigante conhecer esses dois lados.

 

Por que essa escolha de mostrar a sua proximidade com a Fabiana como um dado anterior ao filme, e não como uma construção que vemos em tela?

A gente tentou fazer um prólogo do tipo “eu estava viajando e conheci a Fabiana”, mas depois achamos que ficou muito explicativo e que era melhor entrar direto nessa viagem. A montagem traz essas elipses, a gente não sabe muito do passado dela. Isso também é uma coisa própria da Fabiana, ela nunca explica as coisas, tudo fica meio nas entrelinhas…

 

Além dessa escolha por não ter esse prólogo, como você pensou no seu papel como personagem do filme ao longo deste processo de montagem?

Acho que é uma coisa que não está resolvida nesse filme. Eu vejo como um grande ponto critico que eu não resolvi. Nesse curso do Ateliers Varan o que eles mais brigaram comigo foi nessa questão “quem é você nesse documentário?”. Eles ficavam pensando em várias ideias para responder a essa pergunta. “Você não fez Arquitetura? Então pode ajudar a projetar a casa da Fabiana”. Sugestões desse tipo, tentando pensar esse meu lugar como personagem, mas nada disso me pareceu sincero. O que eu queria na verdade era conhecer ela, simplesmente, e não me colocar em busca de algo para além das histórias dela. E hoje em dia eu fico pensando nisso. É ate uma coisa que eu queria escutar das pessoas que assistem ao filme, para saber como elas entendem isso. Você já disse que sou “personagem”, mas tem gente que acha que eu não chego a ser uma personagem, que fiquei muito escondida.

 

Como você percebeu a relação da Fabiana com a câmera e em que momento você sentiu que as filmagens poderiam potencializar aquela experiência que você já sentia que era interessante no contato sem a câmera?

Acho que naquele teaser para fazer o curso no Ateliers Varan. Fiz uma viagem com ela de São José do Rio Preto até Goiânia. No meio do trajeto eu achei que não ia resultar em filme nenhum e que era melhor eu desistir. Eu tinha uma lista de perguntas, uma coisa meio tradicional, de jornalista, e ela respondia meio dura. E acho que não era por causa da câmera. Era mais uma coisa de ela ficar pensando “o que será que eu tenho que responder que vai encaixar no que ela quer”. E eu pensei “já era, estou perdendo o meu tempo”.

Aí na outra metade da viagem eu decidi que ia fazer assim: quando ela for falar alguma coisa, eu ligo a câmera. Foi por aí que fui entendendo como que seria essa questão, que não adiantava fazer perguntas diretas. O lance com a Fabiana era mais indireto, de criar situações, perguntar de uma coisa e ver se isso reverbera de alguma forma lá na frente. Na segunda parte da viagem (para a filmagem do teaser) era isso: ela falava “Brunna”, eu fingia que não escutava, dava play e ela começava a falar.

Depois, na viagem em que filmamos o que aparece no documentário, foram 28 dias na estrada. Então era muito tempo de silêncio, eu ficava filmando muito a paisagem, nem sabia se ia entrar no filme ou não, e quando ela falava “Brunna” eu virava a câmera e ela falava. Fui percebendo que ela ia ser mais potente para a câmera se pudesse falar no tempo dela.

Isso era muito possível em uma viagem tão longa, não sei se iria funcionar em uma entrevista em outra situação. O tempo da estrada, o tempo da reflexão, vai trazendo as ideias. Nisso ela esquecia mais a câmera. E mesmo quando ela tinha noção de onde estava a câmera, não era algo para o qual ela ligava.

A Fabiana estava sempre com o transmissor do microfone de lapela. Quando ela acordava, já botava. Então tem também uma vontade dela de performar para a câmera, né. Só que não funcionava no esquema que eu tinha pensado, da listinha de coisas. Tinha que ser no tempo dela.

 

Algumas questões que vemos muito em filmes e mesmo em debates na sociedade, como falar do processo de transição ou falar diretamente sobre como é ser uma pessoa trans em uma sociedade transfóbica, não estão colocadas dessa maneira no seu documentário. Não é um “filme sobre uma transexual”, embora também traga contribuições para esse debate…

Uma primeira coisa que eu poderia dizer é que a Fabiana não se assume como mulher trans. Na estrada ela diz apenas que é mulher, muita gente não sabe que ela é trans. A Meire, a manicure, muita gente não sabe. Os próprios caminhoneiros não entendem muito o que é trans. A questão aparece no filme em alguns momentos: ela fala da cirurgia, pergunta do filho… acho que as pessoas vão entender. Mas ela não se expressa de uma forma mais militante, então esse ponto de vista do filme é também de respeito à maneira como ela gosta de se colocar no mundo.

Nesse processo de pesquisa eu assisti a muitos filmes sobre a temática trans, e em um determinado momento eu estava meio cansada, porque acho que eles se repetem. Isso não é uma critica, acho que cada pessoa tem a sua singularidade. É importante. Mas eu não queria fazer mais um filme sobre o processo de transição. Até porque a Fabiana está se aposentando, tem quase 60 anos, não é jovem como são a maioria das personagens trans de outros filmes. Para a Fabiana muita coisa já está superada. Se você perguntar sobre a cirurgia, ela vai falar tudo, mas pra ela é uma questão que já faz tempo; ela está agora em outra etapa da vida, na aposentadoria.

Tem gente que já me criticou pelo fato de a questão trans não ter ficado tão forte no filme. A galera mais militante LGBT queria que eu mostrasse mais a transição, como é que foi sofrer os preconceitos, como ela passou a infância, uma coisa muito mais forte, que acho que muitos filmes já estão falando.

 

O lançamento do filme acabou sendo pouco depois da greve dos caminhoneiros que parou o País e trouxe à tona um debate sobre as condições precárias de trabalho dessa classe. No seu documentário o destino do trabalho da Fabiana aparece em alguns momentos (como nas imagens de um frigorífico), mas eu não vejo uma preocupação grande de discutir também as relações de trabalho envolvidas ali. Como você lidou com esse tema durante as filmagens e na montagem?

Na filmagem eu fiz muitas imagens de descarregamentos, até pensando que ali a gente entrava em um universo muito masculino, que contrastava com os momentos em que estávamos somente eu e ela na cabine. No primeiro corte do filme, que tinha três horas, havia muitas dessas imagens, mas era uma coisa quase marxista, sabe? Cheguei a filmar melões em Mossoró, entrei em uma fábrica em São Paulo… Mas depois desse primeiro corte a gente começou a sentir que precisava focar um pouco mais na Fabiana.

Isso também é uma daquelas coisas que eu fico pensando “se não” [poderia ter feito diferente na montagem]. Se o filme não teria que ter enfocado um pouco mais. Mas como eram muitos temas a gente começou a enxugar um pouco disso. E também pensamos que estava didática demais a nossa forma de mostrar como o processo de trabalho influencia a vida das pessoas. Então a gente acabou tirando para dar mais luz para a Fabiana. Mas tinha muito isso.

 

E agora você acha que tem muito pouco?

Acho que tem pouco, mas deu conta no sentido de poder dar esse enfoque maior para a Fabiana. E as relações de trabalho acho que estão mais no cansaço dela, no café sem parar, no cigarro… Outra coisa que ela não quis falar foi sobre a maneira como perdeu os dedos, que foi justamente trabalhando. Então acho que a questão do trabalho no filme está mais no corpo dela do que nas mercadorias entrando e saindo.

 

Em momentos como o da ida da Fabiana para olhar os aviões no aeroporto acho que há uma simplicidade que pode soar anacrônica, a depender de quem está olhando. Não acho que é isso que acontece, mas penso que havia ali o risco de se filmar aquilo de modo a diminuí-la ou ridicularizá-la. Queria saber como você pensou essas cenas.

É uma coisa interessante de pensar: se as pessoas entenderam isso como uma diminuição dela, um rebaixamento. O que eu pensei foi em criar micro resistências para esse cotidiano duro da estrada. Toda vez que passava um avião, a Fabiana quase parava o caminhão e apontava para ele. Assim como o caminhão é muito um símbolo de liberdade para ela, o avião é uma espécie de suprassumo da liberdade. Então foi isso: pensei em pequenas maneiras de sair desse cotidiano duro com detalhes que levam a gente para um lado mais leve, pueril.

 

Quando a gente pensa na relação religião e pessoas LGBT a gente pensa numa relação de opressão, de choque, e às vezes o encontro com a realidade mostra um cenário completamente diferente. Como você pensou nessa aproximação do filme com a religião?

Acho que pensei meio parecido com essa questão do pueril, do simples. A Fabiana e eu brigamos muito duas vezes. Ela queria passar de madrugada ali pela 116, que vai do norte da Bahia para Pernambuco, uma estrada que tem muito assalto mesmo de dia. E ela queria passar lá meia-noite, justamente porque tinha essa ideia de que Jesus estava sempre com ela, e eu comecei a duvidar de Jesus. Eu falei: “não, eu duvido de Jesus porque é a ultima viagem, se roubarem a câmera não tem como pegar o seguro”. E ela: “não, Brunna, você tem que acreditar em Jesus, você é muito sem fé”. Começou a brigar comigo, acelerou o caminhão e foi, e no meio de Pernambuco queria parar no meio da estrada para dormir. Eu já dei outro piti, falei para ela pelo menos parar no posto de gasolina. E a segunda vez foi quando íamos para o Rio de Janeiro. Tem muito roubo de carga na Avenida Brasil antes do Natal, ela queria entrar, e a gente discutiu tremendamente.

Nossas brigas foram mais disso, de eu não acreditar que Jesus estava sempre com ela. Acho que a religião foi muito importante pra ela aguentar tanto a questão do preconceito quanto dos riscos da estrada. Para acreditar que está protegida nesse percurso.

 

Acho que essas brigas que vocês tiveram poderiam ser um material rico se a gente as visse no filme. Por que elas não estão em tela?

Seria uma maneira de eu me inserir melhor como personagem no filme, né?

Acho que não está em tela por uma questão minha mesmo, de não me expor. Eu que fiz o select do material bruto antes de passar para a montadora, dividi tudo em temas, fiz a transcrição… Eu via aquilo e pensava por que estava discutindo com ela. Hoje eu vejo que poderia ser um material interessante enquanto contradição, mas quando assisti eu falei “nossa, que imatura eu fui de alimentar essa discussão com ela”. Durante esse primeiro momento da montagem eu fiquei me penalizando um pouco por não ter me aberto mais pra ela nesse sentido da religião, na hora das brigas. Pensando que podia ter sido um pouco mais neutra.

 

Mas está tudo gravado?

A do Rio tem um pouco gravado, mas a de Pernambuco não, porque quando ela falou que já estava indo eu fiquei espalhando os equipamentos pela cabine, então não gravei nada da discussão. Gravei do Rio de Janeiro um pouco. Mas quando ela falou “vou descer pro Rio” eu também já comecei a esconder as coisas.

 

Mas depois que passou a primeira briga você se arrependeu de não ter gravado?

Eu pensei que poderia ter gravado o áudio. Câmera eu acho que não iria filmar mesmo não. Eu falei: “nossa, se perder essa câmera, perdeu o filme.” Porque tinha a questão da aposentadoria da Fabiana. Era a última viagem dela, então se as câmeras fossem roubadas eu teria que acionar o seguro, e até isso ser resolvido ela já não estaria mais viajando.

 

Então a sua preocupação era um tanto quanto egóica também?

De ter o meu filme? (risos) Talvez. Ou também de prestar contas pro Itaú Cultural. Eu falei: “como devolvo esse dinheiro? Não tenho um tostão furado”. Tinha essa questão do dinheiro, de ter que entregar o filme.

 

Gostaria que você falasse sobre o fato de a Fabiana ser uma pessoa muito bem resolvida com relação à própria sexualidade, e aí pensar um pouco também no quanto você pensava que ao estar gravando aquilo você estava captando imagens que geralmente não são vistas no cinema brasileiro.

Uma coisa que sempre me encantou – e isso não entrou no filme porque eu não consegui filmar; quando eu pedi para ela falar de novo ficou ‘meio assim’ – é que o caminhão tem para ela uma potência de conquista. A Fabiana precisa ter um caminhão grande porque sente que isso é uma maneira de conseguir conquistar mais mulheres na estrada. Isso me pareceu muito interessante, de como na estrada, além de ela ter toda a batalha por ser trans contra todos aqueles homens, na verdade ela quer conquistar as mulheres com quem esses homens ficam.

Teve uma vez que um amigo viajou com ela de São Paulo pra Goiânia, e durante o caminho ela dizia pra todo mundo: “é meu primo, é meu primo, não tenho nada com ele”. Acho muito interessante que além de se afirmar como trans ela se afirme como lésbica. Não é apenas uma questão de resistência, mas de afirmação. De se impor enquanto lésbica e de mostrar pra outros caminhoneiros que consegue mais do que eles. Fica uma certa disputa.

 

Você falou do caminhão como uma espécie de extensão dela, inclusive no sentido de conquista. E tem um plano em que ela está consertando o caminhão e a gente não vê onde ela está mexendo. Acho que é um plano que passa essa questão, dá uma ideia de domínio…

Uma das ideias era isso. Acho que podia até ter retratado um pouco mais, mostrado o caminhão enquanto espaço, casa e lugar. Acho que isso faltou um pouco no filme. Uma ideia que vem desde o projeto é a do caminhão como extensão do corpo dela.

 

E a mesma naturalidade com a qual ela lida com as questões mecânicas ela lida com a própria sexualidade. Ou já estou ‘viajando’ muito?

Eu acho que sim. Acho que sim. Boto fé.

 

*O repórter viajou a convite do 7º Olhar de Cinema