Dentro de um táxi em Fortaleza, uma das muitas cidades em que divulga o lançamento do filme Aquarius, o diretor Kleber Mendonça Filho conversava por celular com o Cine Festivais quando uma imagem vista pela janela o fez cortar a linha de raciocínio: “estou passando aqui por uma casa incrível, bem grande, e o muro dela está todo cercado com placas de ‘breve mais um empreendimento’…”, contou em tom de indignação.

A partir desta visão crítica e extremamente atenta sobre o desenvolvimento urbano saíram muitas das discussões levantadas por O Som ao Redor, aclamada estreia de Kleber em longas-metragens de ficção. No novo trabalho, o ponto de partida dá papel central a essa preocupação: Clara (Sonia Braga) é uma crítica musical aposentada que decide resistir às ofertas de compra de seu apartamento por uma construtora que pretende derrubar o edifício antigo para erguer ali um condomínio dentro do padrão de modernidade atual.

A notoriedade cinematográfica de Aquarius se deu primeiro pela seleção para a competição oficial do Festival de Cannes, algo que não acontecia com um filme brasileiro desde 2008, com Linha de Passe, de Walter Salles. A boa repercussão na crítica internacional, os prêmios conquistados em festivais como o de Sidney e a seleção para eventos de peso, como os de Nova York e Toronto, confirmaram a sua boa trajetória.

Houve também uma onda de acontecimentos extra fílmicos iniciada pelo protesto da equipe em Cannes contra o impeachment de Dilma Rousseff e que teve desdobramentos com acusações levianas sobre a estada na cidade francesa, dúvidas pairando sobre a imparcialidade da comissão que vai escolher o filme brasileiro que tentará um lugar no Oscar 2017 e idas e vindas na classificação indicativa do filme – agora de 16 anos.

À frente do festival Janela Internacional de Cinema do Recife há nove anos, Kleber comemora uma recorrência menor “daquele tipo de festival em que se pensa mais em turismo do que em cinema, daquela ideia de festival meio como uma feira de autopeças”.

Na conversa a seguir deixamos as autopeças de lado e falamos sobre cinema.

 

Cine Festivais: Você disse na época da divulgação de O Som ao Redor que havia visto filmes do Quentin Tarantino antes de iniciar as filmagens, por querer captar a energia daqueles trabalhos. Quais foram os filmes que você assistiu antes de filmar Aquarius?

Kleber Mendonça Filho: Eu dei uma olhada em alguns filmes nos quais eu acho que mulheres estão muito bem filmadas. Lembro de ter visto 3 Mulheres, do Robert Altman, assisti a um filme russo que em inglês se chama Wings, dirigido pela Larisa Shepitko, e revi O Beijo da Mulher-Aranha, do Hector Babenco (com Sonia Braga no elenco).

Diferente da época de O Som ao Redor, eu não tive tanto tempo para rever filmes antes das filmagens, mas esses três eu de fato sentei com esse intuito. Foi muito bom ver o filme do Altman, porque eu adoro o cinema americano dos anos 70. Gosto da maneira como ele filma, com tela larga, e gosto muito daquele estilo meio “como quem não quer nada” que ele tem. Acho que tem pelo menos uma sequência no Aquarius muito inspirada por esse filme.

 

CF: Assistindo a Aquarius eu notei semelhanças formais do trabalho com O Som ao Redor, em elementos como as fotografias que abrem o filme, os pesadelos, o uso de zoom… Acredito que isso pode se romper no seu próximo filme…

KMF: Nenhuma dessas semelhanças é planejada. Orginalmente o roteiro de Aquarius não tinha a abertura com fotos. Foi só no período final da montagem que eu achei que seria bonito abrir com fotos, pois isso faz parte de um pacote de informações emotivas e históricas sobre o lugar em que o filme se passa.

O uso de zoom é simplesmente como eu gosto de filmar. Acho que os filmes saem parecidos porque foi a mesma pessoa quem fez. O meu próximo filme, Bacurau, que vou dirigir em conjunto com Juliano Dornelles, talvez seja um rompimento em termos temáticos com relação a esses outros dois filmes, mas ao mesmo tempo continua sendo um filme meu, então vamos ver o que vai acontecer…

 

CF: Sobre as fotos, você havia citado na época de O Som ao Redor que houve uma inspiração em Os Donos da Noite, do James Gray. Há outros filmes que terminam com fotos, como o Dogville, do Lars Von Trier…

KMF: Sim, eu gosto muito da utilização das fotos nesses dois filmes. Quando fiz O Som ao Redor as fotos já estavam previstas desde a primeira linha do roteiro, mas eu não escrevi pensando em nenhuma referência. Acontece que antes das filmagens eu revi Os Donos da Noite e entendi que vinha dali aquela ideia, porque é maravilhosa aquela abertura do filme com as fotos da polícia. E em Aquarius essa decisão veio na montagem final, um tanto por causa da minha experiência com O Som ao Redor, mas de novo porque eu revi Os Donos da Noite durante o processo de montagem, uns sete meses atrás. Então é muito maluco tentar entender como funcionam as referências.

 

CF: O Som ao Redor destacava um elemento muito forte para quem conhece Recife, que é a grande quantidade de grades que estão presentes no apartamento. Em Aquarius o edifício-título tem muros baixos e não tem grades visíveis. Como você trabalhou isso como mais um elemento de resistência da protagonista do filme?

KMF: Achei que seria interessante essa mulher ser tão certa do que ela faz e do que pensa, e tão livre, a ponto de não haver grades. As portas da sala e da cozinha não têm grades para a escada, a janela principal da sala dela não tem grade… Tem um plano que começa em uma quadra com garotos jogando futebol perto da praia e termina dentro do apartamento, com a Clara na rede. Aquilo deixa bem claro que ela está não só livre, mas também exposta.

A arquitetura do (edifício) Aquarius é bem anormal para os dias de hoje, o que não deixa de ser irônico, porque isso era o padrão 60 anos atrás, mas que hoje não tem os elementos de segurança que a sociedade enxerga como corretos ou adequados, por isso que desejam destruí-lo. É um pouco como um carro antigo que tem toca-fitas, carburador e cheiro de gasolina dentro…

 

CF: Há dois momentos em seus longas de ficção que eu chamaria de “momentos dedo na cara”. Em O Som ao Redor isso acontece na cena da “Veja fora do plástico” e em Aquarius, na discussão mais ríspida entre Clara (Sonia Braga) e Diego (Humberto Carrão) sobre caráter e cultura. Gostaria que você comentasse como você avalia essa questão de explicitar um discurso ou deixar ele implícito, até porque atualmente o mais fácil é reiterar um discurso que todo um grupo concorde.

KMF: Acho que as duas cenas que você apontou são momentos em que os filmes não podem perder a oportunidade de deixar uma discussão cristalina em relação ao que está acontecendo. Embora estejamos no universo do cinema, eu acho muito bom quando você reconhece o realismo do filme a partir de um objeto ou de pequenas situações, algumas palavras que são faladas, pois isso gera uma ligação muito grande entre o filme e o público.

Eu já viajei com Aquarius para alguns países, mas essas sessões que eu estou acompanhando no Brasil são absolutamente impagáveis, porque o filme vai para um próximo nível. No caso da Veja, por exemplo, um alemão ou um australiano que visse o filme acharia simplesmente que é uma revista nacional, mas no Brasil aquilo ali tem um significado politico muito forte.

E quando Diego tem uma discussão séria com Clara eu achei que ela teria que falar com todas as palavras o que realmente acha dentro da situação na qual estava. E sim, talvez seja um pouco “dedo na cara”, mas na vida em sociedade às vezes a gente tem que colocar o dedo na cara de alguém. Não é bonito, mas faz parte. Acho que a gente não pode ficar calado na vida em sociedade – uma guerra de palavras é muito mais interessante do que uma guerra de armas.

Uma troca de ideias pode ser passional e acirrada, e eu acho que aquele é o momento do filme onde ela teria que abrir a caixa de ferramentas e botar tudo na cara dele. E ele também faz isso, de maneira que me parece apelativa, escrota e agressiva. Na verdade, muita gente quando perde a razão parte para o que há de mais baixo no seu caráter, então é uma cena que até hoje eu gosto de ver sendo projetada, acho que é o momento certo para fazer aquilo.

 

CF: Você trilhou uma trajetória multifacetada no cinema, como crítico de cinema, programador do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, cineasta e diretor do festival Janela Internacional de Cinema do Recife. Gostaria que você falasse como essa última experiência vem sendo importante para você como diretor.

KMF: O Janela é um projeto muito pessoal meu e de Emilie (Lesclaux, produtora casada com o cineasta). A gente queria fazer um festival em que a gente pudesse colocar todas as nossas pequenas obsessões cinéfilas e que fosse próximo do que é feito em audiovisual no Recife, o que naquele momento não existia.

Uma ideia básica era o Janela poder exibir tudo, sem ter nenhuma regra relacionada a duração, ano, produção, exibição, tema, ineditismo, etc. A gente não queria nunca se colocar na posição de se apaixonar por um filme e dizer: “ah, que pena que a gente não pode exibir porque tem dois minutos a mais do que está no regulamento”. Muitos festivais ainda são assim, infelizmente.

Foi importante também fazer o festival no centro do Recife. Quando a gente foi para o (cinema) São Luiz muita gente disse que ninguém ia mais para o centro, mas sabíamos que as pessoas iriam se tivesse algo incrível por ali, e hoje todo mundo sabe das filas que são formadas para assistir aos filmes, do clima da sala para ver um filme clássico, ou um trabalho novo do cinema americano, romeno, ou brasileiro. Esse ano vamos para a nona edição. Dá muito trabalho, não temos um orçamento muito grande, mas o festival se tornou uma coisa muito boa, com todo mundo querendo ajudar e fazer parte. Aprendi muito fazendo o Janela e dei muito da minha visão de cinema a ele.

 

CF: O Janela se insere em um circuito recente de festivais criados por diretores de cinema…

KMF: É uma nova geração que de maneira muito pacifica e tranquila decidiu fazer seu próprio festival, depois de ter observado durante anos, como cinéfilos mesmo, como eram os outros festivais. A Mostra de Tiradentes teve papel importante nessa guinada, e nessa leva de festivais criados por diretores posso destacar o Olhar de Cinema, a Semana dos Realizadores, o Cine Esquema Novo, entre outros.

Acho que a gente está chegando ao fim, finalmente e graças a deus, daquele tipo de festival em que se pensa mais em turismo do que em cinema, daquela ideia de festival meio como uma feira de autopeças, que acontecia mais frequentemente no Brasil, embora ainda existam alguns desse tipo.

 

CF: Você estreou em longas com o documentário Crítico…

KMF: É bom você achar isso, pois muita gente não o considera, dizem: “mas é documentário…”. Isso é engraçado.

 

CF: Com os curtas, então, isso deve ser pior…

KMF: Sem dúvida, vivi muito isso: “quando é que você vai fazer um filme de verdade?”. “Mas eu já fiz”. “Não, um longa”. Aí fiz o Crítico e a conversa era “parabéns, mas é documentário, quando vai fazer um longa de verdade…”. Ainda bem que o Aquarius tem 2 horas e 21 minutos…

 

CF: Pegando o gancho do seu primeiro longa e da sua atividade como crítico, queria saber como você lida com o que é escrito sobre os seus filmes, que no geral têm recebido avaliações positivas desde O Som ao Redor…

KMF: Muita gente me pergunta se o fato de eu ter sido crítico me ajuda a fazer bons filmes. Eu acho a pergunta lógica, mas totalmente impossível de responder. Para mim seria a mesma coisa caso questionassem se ter amigos muito legais ajuda a fazer bons filmes, ou se ter um prazer especial em cozinhar para as pessoas ajuda a fazer bons filmes. Ou seja, dá para continuar a fazer essa pergunta de várias formas, sem nunca obter uma resposta. No caso do Tarantino perguntam sempre se o trabalho dele em locadora o ajudou a ser cineasta.

Posso dizer que meu treinamento como crítico meu deu uma facilidade de lidar com a fortuna crítica sobre os filmes. Do meu lugar atual isso é muito fácil, pois tanto dentro quanto fora do Brasil meus filmes recebem criticas muito positivas, mas acho que também faz parte da vida ler críticas negativas. Assim como as positivas, elas podem ser inteligentes ou completamente estúpidas e quadrúpedes. Eu lido com isso com muita naturalidade.

Conheço cineastas que ficam nervosos e que não lidam bem, ficam mal, e eu entendo eles, mas eu realmente lido bem. Leio textos, não os evito, me interesso por eles, e acho fantástica a massa critica em torno de um filme. Percebo que muitos textos não são frutos de ociosidade, preguiça ou obrigação, mas sim de um tesão mesmo por escrever. Acompanhando pelo Twitter, muitas vezes você saca que teve uma pré-estreia à noite e o texto foi postado às três da manhã, ou seja, o cara chegou em casa e foi escrever, aparentemente por tesão. Dou muito valor a isso e fico até muito tocado, porque eu já fiz isso de chegar de uma sessão e precisar escrever sobre um filme.