Entre os cineastas com longas-metragens selecionados para a mostra competitiva do próximo Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, Adirley Queirós é, certamente, aquele que tem o convívio mais amplo e tumultuado com o evento. Em 2005, o seu curta Rap, o Canto da Ceilândia venceu os prêmios de melhor filme tanto pelo júri oficial quanto pelo popular. A honraria impulsionou a carreira do diretor, que voltou a participar do festival quatro anos depois com o curta Dias de Greve. Em 2011, quando o seu primeiro longa-metragem, A Cidade é Uma Só?, foi selecionado para a mostra Primeiros Filmes do Festival de Brasília, ele retirou o filme do evento graças a uma série de divergências com a organização.

“Naquele ano o evento veio para as cidades-satélites pela primeira vez, só que eles colocaram o festival dentro de um lugar (Teatro Sesc Newton Rossi) que não dialogava de maneira nenhuma com a cidade de Ceilândia. Ele sediava o festival durante uma semana e depois não tinha programação de cinema no resto do ano. Nossa proposta era que o evento equipasse uma sala de escola ou cineclube para que fosse deixado esse aporte técnico para a cidade, mas na época nem houve diálogo. Então, se não existia a mínima possibilidade de conversa, não tinha sentido a gente passar o filme no festival”, recorda Adirley, em entrevista ao Cine Festivais.

Depois de ser retirado do Festival de Brasília daquele ano, A Cidade é Um Só? foi inscrito na Mostra de Cinema de Tiradentes de 2012 e acabou ganhando a Mostra Aurora, seção do evento mineiro voltada para filmes de realizadores iniciantes em longas-metragens. Neste ano, Adirley também estreou em Tiradentes o seu novo filme, Branco Sai, Preto Fica, que foi selecionado recentemente para a mostra competitiva do Festival de Brasília junto a outros cinco longas.

Em 2011, outra reclamação do diretor e da Ceicine, coletivo de cinema de Ceilândia do qual Adirley faz parte, se referia à subvalorização dos filmes do Distrito Federal, que naquele ano foram retirados do palco principal do festival da capital federal (Cine Brasília) e passaram a ser exibidos no Museu Nacional do Conjunto Cultural da República. Este ponto, pelo menos, foi modificado já na edição de 2012, quando os trabalhos da Mostra Brasília voltaram a ser exibidos no mesmo local que sedia a mostra competitiva. Já em relação às exibições do festival em Ceilândia, o palco deste ano continuará sendo o Teatro Sesc Newton Rossi, mas haverá avanços em outras cidades-satélites.

“A escolha dos espaços nas cidades é feita de acordo com o movimento sociocultural da cidade. No caso da Sala Sesc, por estar equipada, ela não precisará dos investimentos perenes que o Festival fará nas outras cidades, equipando os espaços para servir como pontos de exibição e espaço para cineclubistas”, escreveu Sara Rocha, coordenadora-adjunta do Festival de Brasília, em contato por e-mail com o Cine Festivais. Sara deu como exemplos os investimentos realizados em Taguatinga (Teatro da Praça), Sobradinho (Teatro de Sobradinho) e Gama (Centro de Ensino Médio 01).

Para Adirley Queirós, as mudanças são um bom sinal, mas ainda há questões a serem resolvidas. “Naquele ano especifico em que a gente tirou o filme, era óbvio para nós que existia uma má vontade na discussão. Esse ano, com eles equipando três salas nas cidades-satélites, já há um avanço enorme. Isso é mais do que foi feito pelo tema nas três últimas gestões do festival. É claro que a gente tem que ver isso que eles estão falando na prática. Tomara que as salas sejam bem equipadas e que as projeções sejam boas. Agora, a gente ainda tem essa crítica à forma como o Sesc de Ceilândia foi utilizado no festival nos últimos anos. Não posso falar nada ainda sobre o evento deste ano porque não sei como foi feito o acordo para esta edição, mas isso é algo que precisa ser discutido com os movimentos da cidade”, opinou o cineasta.

 

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