Cineasta morador de Ceilândia, cidade-satélite de Brasília, Adirley Queirós faz filmes em que expõem o processo histórico de exclusão sofrido pelas zonas periféricas da capital federal. Em A Cidade é Uma Só?, em vez de exaltar o aniversário de 50 anos do município projetado por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, o diretor mostra como um discurso oficial de união serviu para retirar famílias pobres de perto do Plano Piloto. Já em Branco Sai, Preto Fica, seu novo trabalho, o enfrentamento entre o centro de poder e a periferia se acirra em uma trama que mistura documentário e ficção científica. Até pelo teor do filme, Adirley não sabe o que esperar de sua sessão na mostra competitiva do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, evento que acontece entre os dias 16 e 23 de setembro.

“A reação tem sido muito boa por onde o filme foi exibido, como nas sessões em São Paulo (Mostra Tiradentes SP) e Curitiba (Olhar de Cinema). Estou muito ansioso para ver como o público de Brasília vai compreender o filme. Tenho uma desconfiança de que vai haver algumas vaias, mas acho que isso pode ser bom, já que o festival é um local de enfrentamento em todos os sentidos. Se pode dar problemas é porque a gente ataca monumentos históricos tidos como intocáveis, que são símbolos de Brasília. Isso pode ser determinante para uma população mais velha”, opinou Adirley, em entrevista ao Cine Festivais.

O cineasta tem um histórico de divergências com o Festival de Brasília que inclui a retirada de A Cidade é Uma Só? do evento de 2011 (leia mais sobre isso aqui). Naquele ano, uma das críticas de Adirley se referia à visão de cinema da curadoria do festival. Nesta edição, porém, a seleção de filmes para a mostra competitiva agradou, e muito, ao diretor, que terá a companhia dos longas-metragens de Marcelo Pedroso (Brasil S/A), André Novais Oliveira (Ela Volta na Quinta), Taciano Valério (Pingo D’Água), Eugenio Puppo (Sem Pena) e Gabriel Mascaro (Ventos de Agosto).

“Não vi os filmes, mas acho uma seleção radical, pela história desses diretores. Estou feliz pra caramba com esses nomes, para mim é um sonho de curadoria. Acho que vai ter muitas críticas à seleção, com pessoas pedindo filmes mais leves… O que é filme leve? É uma besteira ficar formatando o que o público gosta. Meu filme não tem nada de experimental, ele é “Sessão da Tarde”, pô. Acho que a gente tem que negar essa coisa de filme de arte, filme experimental… Esse rótulo vai reverberar lá na frente na definição de políticas públicas para o cinema”, afirma o cineasta.

 

Auge do filme?

O Festival de Brasília é um dos mais tradicionais e importantes do cinema brasileiro. No entanto, apesar de reconhecer a importância histórica do evento, Adirley Queirós, não vê a seleção de Branco Sai, Preto Fica para a mostra competitiva como o auge da trajetória de seu filme. “Na minha leitura, o ponto alto ainda é a exibição em Tiradentes, um festival corajoso, que acolhe todos os filmes muito bem”, aponta, se referindo ao evento em que o longa foi premiado com uma menção honrosa do júri oficial.

“Já falei muitas vezes, mesmo no momento em que eu briguei com a organização, que talvez o Festival de Brasília seja o mais importante historicamente, por ter exibidos filmes de pessoas como Rogério Sganzerla, Carlos Reichenbach, Vladimir Carvalho, mas eu não eu acho que hoje ele seja o auge. Festivais tidos como menores como o Cachoeira Doc e o Forumdoc.bh têm a mesma importância para mim. Agora, pelo conjunto de filmes selecionados, eu diria que Brasília seria talvez o mais importante, por estar dialogando com trabalhos que eu acho que podem ser muitos bons”, explica.

Além da exibição no Festival de Brasília, Branco Sai, Preto Fica vai participar do Festival de Hamburgo (Alemanha), que acontece entre 25 de setembro e 4 de outubro, e do Ficunam (México), que começa em fevereiro do ano que vem.  O filme também foi convidado para participar da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e deve estar na programação do evento, que acontece entre os dias 16 e 29 de outubro. Até o momento, não há previsão de distribuição no circuito comercial.

 

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Foto: Leo Lara/Universo Produção