Vencedora dos prêmios de melhor curta-metragem no Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte (FestcurtasBH) e no Janela Internacional de Recife no ano passado, Ana Pi conta que ainda não entende os códigos do universo do(s festivais de) cinema. Noirblue: deslocamentos de uma dança, que narra em primeira pessoa sua viagem por vários países da África sub-saariana, foi feito com o objetivo de compartilhar a experiência com pessoas próximas, e não era visto pela própria artista como “cinema” até existir o convite para que a obra entrasse na programação do FestCurtasBH, no último mês de agosto.

Vinda do contexto da dança contemporânea, no qual atua como coreógrafa, pesquisadora, pedagoga e dançarina, Ana realizou em 2017 o espetáculo Noir Blue, que passou por países como França, Portugal e Bélgica. A viagem para os países africanos aconteceu durante a criação da performance, e resultou em filme um pouco por acaso.

“Quando voltei, as pessoas ficavam me perguntando como tinha sido, e eu não conseguia contar muito dos lugares em si. Gastava muito tempo para explicar coisas que, se as pessoas quisessem ter acesso, poderiam achar na internet (“onde fica o Níger?”). O mais importante pra mim era contar sobre os pensamentos que me ocorreram por estar ali, daquela experiência, como me senti, que informações que eu tive acesso que não chegam até aqui, ou que não saem de lá, inclusive”, diz.

Após mais uma exibição do filme, desta vez na 22ª Mostra de Tiradentes, o Cine Festivais conversou com Ana Pi sobre a concepção do trabalho e a respeito da atenção que ele tem recebido nas sessões em festivais de cinema.

 

Cine Festivais: O espetáculo de dança Noir Blue estreou em 2017 e foi realizado em países como França, Portugal e Bélgica. Como ocorreu a construção desse conceito, e em que momento se deu a viagem para os países africanos que vemos em seu filme?

Ana Pi: Eu venho do campo da dança, e naquele momento estava muito intrigada com o conceito de dança negra, procurando entender o que da minha formação abarcava isso. Fiquei pensando em como poderia trabalhar com essas danças de uma forma mais aberta, colocar juntas danças que são de contextos totalmente diferentes, como uma dança de cerimônia e uma dança de batalha. Uma das formas que encontrei de promover esse contato foi através do afrofuturismo. Então esse foi o primeiro passo; estava preocupada primeiro em fazer o espetáculo de dança.

A oportunidade de viajar em África surgiu no meio desse processo de criação do espetáculo. Durante a viagem fui fazendo aqueles experimentos que dão material para o filme e encontrei pessoas que foram me dando mais informações sobre danças negras. Então tudo foi ficando mais rico, e foi nesse momento que resolvi pensar nessa expressão racista “azul de tão preto”. Foi uma questão que me coloquei: como eu criaria uma dança “azul de tão preta”?

 

Você já tinha ido à África anteriormente? Qual era a sua expectativa para a viagem?

Já tinha ido ao Marrocos e à Tunísia, mas foi a primeira vez que fui para a África sub-saariana, ou África Negra, expressão que usam muito na França. Não tinha expectativas absurdas (pela viagem), na verdade. Estava muito feliz, muito curiosa, e já fui sentindo um pouco de como seria a viagem no próprio processo de fazer os vistos nas embaixadas, entrando em contato com todas aquelas pessoas, com espaços totalmente diferentes e comportamentos totalmente diferentes uns dos outros. Por aí eu já sabia que seria muito fora de tudo o que eu já pudesse ter pensado sobre, e principalmente visto sobre. Porque acaba que a maioria dos materiais que a gente tem em imagem sobre África são muito exotizantes, muito expositivos de uma África ritualística, mas totalmente fora de contexto, vista pelo olhar de pessoas que são inclusive céticas de tudo. Ou então mostram a fome, a miséria, os animais selvagens…

Quando aconteceu a viagem, já nesse primeiro momento do avião, que está na narração do filme – quando vi todas aquelas pessoas negras, principalmente o piloto e quem estava na primeira classe –, percebi que iria me deparar com uma complexidade, que eu iria ficar ao avesso mesmo. Pensando nessa questão do quão humanos podemos ser enquanto pessoas negras, ou mesmo nessa coisa do status social. Naquele momento eu já percebia que estava indo para um lugar absolutamente humano, humanizado mesmo, e isso foi maravilhoso.

 

O subtítulo do filme é “deslocamentos de uma dança”. Queria que você falasse um pouco sobre esse conceito, inclusive pensando no modo como você utiliza o som no filme. O próprio fato de em grande parte dele não termos o som direto, mas a sua narração, me parece ter a ver com uma proposição de deslocamento feita ao espectador.

Trânsito e deslocamento são ideias que eu gosto muito e que venho trabalhando há alguns anos nessa perspectiva de observar como as coisas e os movimentos se transformam. Tem uma hora do filme em que falo sobre uma pergunta que os dançarinos me fizeram, e acho que a reflexão passa por aí. Quando a gente foi escravizado, a única coisa que pudemos trazer foram os gestos. Então eu tenho trabalhado com essa questão do deslocamento porque é o que fica no corpo; inevitavelmente os gestos ficam, e eles se deslocam com a gente. É um tipo de coisa que é tão de dentro que eu não consigo muito explicar.

Sobre o som e o texto, foi uma coisa que aconteceu, na verdade. Quando voltei da viagem as pessoas ficavam me perguntando como ela tinha sido, e eu não conseguia contar muito dos lugares em si. Gastava muito tempo para explicar coisas que, se as pessoas quisessem ter acesso, poderiam achar na internet (“onde fica o Níger?”). O mais importante pra mim era contar sobre os pensamentos que me ocorreram por estar ali, daquela experiência, como me senti, que informações que eu tive acesso que não chegam até aqui, ou que não saem de lá, inclusive. Então o deslocamento era isso, um deslocamento visando ampliar a reflexão sobre essa questão de onde viemos e como aquele lugar de onde viemos está. De uma certa forma as imagens dão conta de mostrar como ele está um pouco. Entendo como se fosse uma contação de história, um griot mesmo, acompanhada das imagens.

 

Tem um momento do filme em que você conta sobre duas situações de racismo que você vivenciou na África. Queria que você falasse dessa opção, também no sentido de não idealização da viagem.

Eu tenho observado que o meu trabalho só faz sentido se eu discutir a questão do racismo estrutural. Então, basicamente, o filme toca nisso. Inclusive na primeira parte, quando conto daquela pergunta que me fizeram (“você sabe que é daqui, né?”). Isso já pontua que vamos falar sobre racismo ao longo do filme.

Essas situações de violência são muitas e são presentes na minha vida em todos os momentos. E aí era importante falar para lembrar que por mais que eu estivesse muito encantada com aquilo tudo, o racismo me acompanha, e me acompanha inclusive num lugar em que a gente pode ter às vezes a ficção de achar que ele não existe. Era importante falar sobre isso porque o filme é sobre como implodir o racismo estrutural, de uma forma que me parecia pedagógica.

Fiz um filme que era direcionado a pessoas que eu amo, mas também sabia que se ele fosse visto por outras pessoas que são insensíveis a essa realidade que o racismo apresenta, talvez elas pudessem escutar e sentir algum tipo de empatia. Isso é um engajamento que eu tenho tentado ter, de poder falar sobre racismo com pessoas que geralmente já ficam tensas (ao ouvir falar do tema), e aos poucos ir trabalhando nelas um certo relaxamento da escuta mesmo. É um trabalho de pedagogia que eu gostaria de não estar fazendo, mas infelizmente a gente ainda está nessa época, né? Do mundo.

 

Qual era o público que você tinha em mente para o filme Noir Blue depois que o realizou, e quando você passou a entendê-lo como uma obra de cinema?

O filme foi feito com uma primeira intenção de compartilhá-lo como se fosse um presente com as pessoas que me acompanham e que tinham participado da organização da viagem. Queria muito abrir a experiência, entendendo que ela não era apenas minha. E também tinha o desejo de compartilhar o filme com as próprias pessoas que encontrei durante a viagem, já que foram encontros muito carinhosos e generosos.

Uma versão de processo do filme foi exibida em 2017 no Centro Pompidou, em Paris, numa ocasião em que tive “carta branca” para convidar outros três artistas para exibirem seus trabalhos. A primeira vez em que houve uma interação em uma sala foi essa, mas era outro contexto, e eu não tinha essa noção de que era um filme que pudesse estar no circuito de cinema, muito porque é uma área em que eu não entendo os códigos ainda.

Quando ele foi convidado e apresentado no FestcurtasBH, principalmente devido a essa coisa tão legal de ele ser exibido em programas temáticos, vi o quanto dialogava com filmes da mesma sessão e também com os de outros programas. Então fui entendendo o lugar dele como um lugar de precisão, e foi uma surpresa muito legal. Mas nada do filme foi feito com o objetivo de atingir os lugares que ele está alcançando, eu não fazia ideia mesmo.

 

E com relação à recepção: como você compara o modo como a performance de dança e o filme se relacionam com o público, pensando também na diferença entre o olhar de europeus e de brasileiros?

A recepção do filme tem sido muito calorosa e emotiva, tanto das pessoas negras quanto das pessoas que não são negras. Acho que essa calma que me autorizei ao narrar faz com que haja esse tempo de entrada no filme, e eu me sinto muito honrada de saber que isso acontece e que essa viagem se amplifica. Que durante os 27 minutos do filme as pessoas estão ali dentro dessas águas abissais junto comigo e com todas aquelas pessoas.

Quando houve a exibição no Pompidou, já havia ocorrido essa entrada, mas como o filme estava em contato com outros trabalhos que falavam de azul, de navio, de cura através do movimento, a gente foi intelectualizando a recepção, foi uma outra experiência.

Em geral, nessas exibições em festivais, o filme tem sido recebido com muita emoção mesmo. Às vezes elas são contraditórias: provoca uma grande tristeza, ou uma grande alegria, a depender da pessoa. Já pensando no espetáculo de dança, acho que ele é mais triste, violento, radical, então as pessoas saem um pouco no vácuo. É um trabalho diferente, que praticamente não tem silêncio; a música fica muito presente. O corpo das pessoas é muito solicitado, acho que elas saem tão cansadas quanto eu da performance. Então são duas experiências complementares, mas não equivalentes.

Sinto que a cena da dança contemporânea, na qual eu me insiro, ainda está com um pouco mais de dificuldade de abrir espaço para esses corpos como o meu, que a gente está num movimento de chutar a porta um pouco maior. Acho que é uma coisa diferente do cinema, pelo menos desse movimento de 2018 e 2019 que estou acompanhando. Sinto que o filme foi bem recebido junto a vários outros (de realizadores negros) de uma forma muito carinhosa, respeitosa. Já na dança contemporânea eu sinto que existe um pouco mais de tensão.

 

*O repórter viajou a convite da 22ª Mostra de Tiradentes