O encontro com um poema inacabado de 1816 escrito pelo britânico Samuel Taylor Coleridge motivou o diretor carioca Alex Levy-Heller a escrever e dirigir seu primeiro longa-metragem de ficção, depois de ter realizado dois documentários (O Relógio do Meu Avô e Macaco Tião: O Candidato do Povo).

Christabel, nome tanto do poema quanto do filme de Alex, é um dos primeiros textos literários a retratar a figura do vampiro. Ele se mostrou avançado para a época também por tratar da relação entre duas mulheres (a vampira e a sua “presa”). Na adaptação para o cinema, ao invés da Inglaterra, a história se passa na zona rural, em meio ao Cerrado goiano.

Boa parte da força do filme, que estreou durante o 22º Cine PE e levou o Prêmio da Crítica, está na decupagem precisa e na força das atuações, principalmente da dupla de protagonistas (Milla Fernandez e Lorena Castanheira). Formado em Artes Dramáticas no EUA, o diretor conta que uma das principais preocupações de seu cinema é justamente a dramaturgia, o que o leva a dar especial atenção aos ensaios e ao pensamento prévio dos enquadramentos de cada cena.

Em conversa com o Cine Festivais, Alex Levy-Heller falou sobre sua trajetória e contou as principais preocupações estéticas que guiaram a o processo de criação de Christabel.

 

Cine Festivais: Como foi o início da sua relação o cinema, até chegar a dirigir filmes?

Alex Levi-Heller: Cinema sempre foi uma paixão, mas eu nunca pensei em fazer cinema como realizador; minha intenção era a de ser ator. Fui estudar nos EUA, na Universidade de Nebraska, onde me formei como ator e diretor de Artes Dramáticas, e lá eu tive a oportunidade de trabalhar em um canal de televisão. Comecei puxando os cabos de transmissão nos estádios e passei por todas as etapas de produção até chegar a ser diretor de TV – eu fazia transmissões de jogos esportivos, mas não queria seguir fazendo isso para sempre.

Como minha paixão sempre foi a dramaturgia, começou ali meu interesse em fazer cinema, sempre com um interesse maior no trabalho com atores. Foi com essa intenção que eu voltei ao Brasil, em 2005. Minha primeira experiência com cinema foi como estagiário de produção de O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, do Cao Hamburger.

Logo em seguida fui chamado pelo Raphael Alvarez e pela Tatiana Issa para produzir o Dzi Croquettes. O filme fez muito sucesso e abriu várias portas para mim. A partir dali produzi outras coisas e dirigi meu primeiro documentário (O Relógio do Meu Avô). Depois veio o Macaco Tião: O Candidato do Povo, documentário sobre um animal que foi alçado a candidato à prefeitura do Rio de Janeiro por meio de uma campanha humorística.

 

Você acha que havia nesses documentários alguma preocupação estética que você veio a incorporar em Christabel, seu primeiro longa de ficção?

Os dois documentários tem uma linguagem tradicional, com depoimentos, imagens de arquivo, arte ilustrativa, etc. A diferença é que em O Relógio… havia a preocupação de deixar o tom um pouco mais poético, com sutileza nas imagens. Eu não queria abordar o Holocausto com aquela dureza das imagens de judeus nos campos de concentração, mostrando pessoas esqueléticas, etc. Queria trazer um pouco mais de poesia e leveza e mostrar como essas pessoas que sobreviveram se reconstruíram no Brasil, inclusive sendo importantes para o desenvolvimento do País. Mas além dessa preocupação e da pouca grana para realizar, não levei muita coisa desses filmes para o meu primeiro de ficção.

 

Como foi o processo de escrita do roteiro e de pré-produção de Christabel?

Enquanto realizava documentários eu já estava escrevendo roteiros de ficção – tenho alguns prontos desde aquela época – e via que era muito difícil concretizar aqueles roteiros. Participei de labs de roteiro, de seminários de coprodução internacional, de um monte de coisas, mas na prática não ia pra frente, porque não tinha verba. E para filme de ficção você realmente tem que ter o mínimo de verba para poder fazer bem feito.

Após os documentários eu senti a necessidade de fazer meu primeiro de ficção, porque foi pra isso que eu resolvi fazer cinema. Eu queria trabalhar com dramaturgia, precisava ir atrás desse objetivo, sentia necessidade de fazer essa transição para a ficção, e não tinha como esperar um edital ou um patrocínio da Lei Rouanet. O tempo vai passando e você leva três, cinco anos para levantar verba para um filme, e daqui a pouco tua vida passou e você não fez nada. Tinha essa necessidade de botar pra fora, por isso eu não podia esperar.

Juntamos uma verba, eu e Lorena Castanheira, minha esposa, que é produtora e atriz do Christabel, conseguimos um investimento direto de um produtor em Goiás, fechamos uma parceria de finalização com a Afinal Filmes, que entrou como coprodutora do projeto, e aí partimos para essa aventura que foi fazer essa longa. Como era um filme independente, sem grana, tentamos pensar em um roteiro simples, em termos de produção, de número de atores e locações, que pudesse ser feito em poucos dias – acabamos gravando ele em 11 diárias.

 

E como você chegou à história de Christabel?

Gosto muito de histórias vampirescas, sempre curti Anne Rice, etc. Aí um dia encontrei um livro da Martha Argel, uma autora brasileira, sobre vampiros. Li, gostei e entrei em contato com ela. A Martha tem um estudo chamado O Vampiro antes de Drácula, no qual fala sobre a evolução da figura do vampiro desde o folclore até o livro do Bram Stoker. Eu achei isso muito legal, e nesse estudo encontrei o poema do Samuel Taylor Coleridge, que está inacabado e é um dos primeiros vestígios literários em que a figura do vampiro aparece. Lendo aquilo achei que seria um prato cheio para meu primeiro longa. Juntou o cinema fantástico, que eu adoro, com temas que seguem atuais, como a liberdade da mulher.

 

Em que ano isso ocorreu?

Foi em 2015 que conheci esse poema. A partir dali comecei a procurar sobre Christabel em tudo quanto é lugar, mas não encontrei nada em português. O poema nem sequer foi traduzido para nosso idioma. Pesquisei bastante sobre o poema, que tem mil e uma interpretações. Geralmente há três vias para a análise dele: a da liberdade da mulher, a da simbologia religiosa e a da literatura fantástica. Todo esse estudo se tornou base para eu poder escrever o roteiro de Christabel. Decidi trazer a história para o Cerrado nos dias atuais, até por uma questão de produção – se fosse um filme de época precisaria de castelo, figurino, etc. Além disso, os temas não envelheceram.

 

E como vocês chegaram na Milla Fernandez, a protagonista de Christabel?

Eu precisava encontrar uma atriz para fazer Christabel. Sou amigo da Vanessa Veiga, produtora de elenco da Globo, e o filme foi uma oportunidade de trabalhar com ela. A Vanessa indicou várias atrizes para um teste, e a Milla apareceu lá e fez o primeiro teste. Só fui descobrir ela depois, quando estava vendo as gravações dos testes.

Havia também uma outra opção de atriz mais famosa, mas ela estava compromissada com uma série da Globo. No meu coração eu queria a Milla, mas pensando como produtor eu achava que a menina da Globo poderia render mais frutos para o filme, comercialmente falando. Então eu quase que torci para ela não poder fazer, para eu ir com meu coração, e foi o que acabou acontecendo. A Milla é uma atriz super dedicada, foi o primeiro trabalho dela no cinema, e eu aprendi demais com ela nos ensaios. Foi a escolha mais acertada que a gente fez.

 

Acredito que a história que você queria contar trazia dois riscos: o primeiro, de o filme cair para o lado do risível, do tosco, e o segundo, de as cenas mais íntimas ficarem vulgares. Como isso foi encarado por você?

No roteiro já havia a preocupação de pensar essas cenas de nudez e sexo da maneira mais poética possível. Muita gente tem fetiches e joga no cinema seu próprio fetiche; eu procuro evitar esse tipo de coisa. Já no roteiro escrevi as cenas mais ou menos como iria filmá-las, para não ter duvida. Como é um poema adaptado, era interessante que as cenas fossem poéticas, bonitas. Queria que as pessoas se encantassem com aquilo, não que sentissem tesão.

O risco de ficar engraçado, tosco, o cinema fantástico sempre tem. Eu não queria que isso fosse um filme trash, nem mesmo queria que fosse um “filme de vampiro”. A essência é um filme de amor entre duas mulheres. Já no roteiro muita gente falava do risco de colocar muito sangue, de ter um dente falso que provocasse risadas. Foi uma coisa que a gente sempre se preocupou, e a partir dos ensaios e dos enquadramentos acho que conseguimos trazer esse tom mais poético. Pelo menos a reação do público do Cine PE não foi de riso; as pessoas estavam ali dentro, com o filme, e isso me deixou muito feliz.

 

Para finalizar, queria saber sobre seu próximo projeto para o cinema.

Filmei meu segundo longa de ficção em 2017. Gosto de chamá-lo de meu ‘primeiro longa de ficção com verba’, já que conseguimos ser contemplados no fundo setorial. Pude, assim, ter uma equipe maior, pagar as pessoas. É um filme que se passa em 1920 e nos dias atuais. Chama-se Jovens Polacas, e é uma adaptação do livro da Esther Largman. É uma história sobre mulheres traficadas do Leste Europeu que vieram ao Rio de Janeiro e trabalhavam aqui em prostíbulos. Elas se tornaram famosas porque eram europeias, de maioria judia. Vinham enganadas, acabavam sendo obrigadas a se prostituir, e a elite do Rio frequentava esses lugares.

Essas mulheres acabaram discriminadas pela própria comunidade judaica, e tiveram que se reunir para criar o próprio cemitério, a própria sinagoga, porque elas sofriam vários tipos de restrições. É uma história muito interessante.

Adquiri os direitos desse livro, que já tentaram adaptar algumas vezes, mas nunca havia dado certo, e tentei trazer o meu tom experimental para esse filme. Assim como Christabel, é protagonizado por mulheres e levanta um tema muito atual. Estamos terminando de finalizá-lo e no segundo semestre devemos começar a mandá-lo para festivais.

 

*O repórter viajou a convite do 22º Cine PE