Alê Abreu tem a sensação de que sempre quis trabalhar com animação. Aos 12 anos, ao ver o anúncio de um curso de animação no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, ele pediu para que o pai o levasse ao local. “Eu fiquei enrolando para terminar esse curso. Gostava tanto de ir lá que passei dois ou três anos vivenciando o MIS e tudo aquilo que acontecia lá”, se recorda o diretor do longa-metragem O Menino e o Mundo, que participa neste mês de junho do Festival de Annecy, principal evento de animação do mundo.

Vindo de uma geração para a qual fazer animação era algo caro e com pouco espaço no mercado – com exceção da publicidade -, Alê é um dos animadores dos anos 80 que acompanhou de perto a evolução desta técnica no país e que pode ver, atualmente, o Brasil começar a ocupar um lugar de destaque neste setor, como demonstrou o recente prêmio de melhor filme do Festival de Annecy para Uma História de Amor e Fúria, de Luiz Bolognesi.

Nesta parte da entrevista ao Cine Festivais, Alê Abreu comenta sobre o crescimento da animação brasileira, explica o motivo de nunca ter ido trabalhar no exterior, revela propostas para fazer isso no futuro e aponta uma mesmice estética nas animações dos grandes estúdios da indústria mundial.

>>> Leia também a outra parte da entrevista de Alê Abreu ao Cine Festivais

 

Cine Festivais: Como você vê o estágio atual da animação no Brasil?

Alê Abreu: Quando eu comecei a fazer animação, nos anos 80, o que tinha força nessa área no Brasil era a publicidade. Havia produtoras muito grandes que viviam basicamente disso. Um único estúdio estava produzindo um longa-metragem de animação no Brasil, que era o Start, do Walbercy Ribas. Ele aproveitava os tempos livres da publicidade para produzir O Grilo Feliz, que levou mais de dez anos para ficar pronto.

Com a criação do Anima Mundi (festival de animação) e a Retomada do cinema brasileiro, com leis de incentivo específicas para animações, criamos a Associação Brasileira de Cinema de Animação e houve uma mudança muito forte com a entrada da tecnologia dos computadores, que diminuiu os custos e democratizou a produção de animações.

Dos anos 80 para cá, meus colegas que começaram nos curtas agora estão fazendo não só longas-metragens, mas também séries de TV (Peixonauta, Meu Amigãozão) que vão para o mundo todo. Para se ter uma ideia da força da animação brasileira, será exibido neste ano, no Festival de Annecy, um longa-metragem que conta toda a história de nosso cinema de animação (Luz, Anima, Ação, de Eduardo Calvet).

 

CF: Você chegou a estudar fora do Brasil?

AA: Eu nunca quis ir para fora estudar. Houve um momento em que eu vi muitos dos meu colegas partirem do Brasil para trabalharem em estúdios dos EUA e Irlanda, por exemplo. Eu sempre tive um sonho muito grande de fazer as minhas coisas, sempre quis fazer um trabalho autoral. Por isso mesmo, nunca tentei fazer contato com qualquer estúdio lá fora e sequer mandei meu portfólio para qualquer lugar fora daqui.

Lá fora você talvez tenha uma melhor condição de trabalho, um melhor salário, mas, mesmo sendo um diretor, é difícil ter toda a liberdade do mundo quando se atua em uma indústria. Eu fiz O Menino e o Mundo atrelado a absolutamente nada, fiz o filme que queria ter feito. Em que indústria você consegue fazer o filme que quer?

Se algum dia eu tiver que me ligar a algum estúdio de fora, e já tenho duas reuniões agendadas em Annecy para conversar sobre isso, vai ter que ser para realizar o que eu quero do jeito que eu quero, sem abrir mão de fazer um filme que tenha a minha cara.

 

CF: Você tem alguma preferência de estilo de animação? Preferiria trabalhar nos EUA ou na Europa?

AA: Estou falando com dois estúdios, um da Europa e outro dos EUA. O que eu acho que acontece hoje é que as animações estão muito parecidas. Tenho a intuição de que a própria indústria já tem um modelo tão viciado que está procurando coisas novas e precisa desse respiro para sobreviver.

Acho que quando a gente chega com O Menino e o Mundo, que tem uma linguagem e um modo de produção tão radicais, parece que trazemos uma luz e um fôlego novo para a indústria. Um filme como Meu Malvado Favorito, que considera um dos mais interessantes dessa última safra de animações, foi feito por um estúdio francês independente, ninguém acreditava muito e se tornou um sucesso comercial. Acho que isso tem a ver com esse momento pelo qual estamos passando.

 

CF: Essa ideia de que os filmes estão ficando cada vez mais parecidos tem a ver com uma espécie de ultrarrealismo que vem sendo buscado pelos grandes estúdios para a caracterização dos personagens?

AA: Acho que é interessante pensar essa coisa do realismo, porque o meu filme, por um lado, é mais realista do que qualquer outro filme da indústria norte-americana. Ele é absolutamente realista na questão de conteúdo, na maneira que eu abordo o tema, embora utilize para isso um desenho que segue o caminho do fantástico e do surrealismo. Utilizamos uma técnica completamente diferente de animação, que foge dos padrões industriais, mas usamos essa linguagem para realizar uma abordagem completamente realista.

Usamos uma estética de sonho para falar de algo muito realista, enquanto que as animações atuais dos grandes estúdios geralmente usam uma questão formal ultrarrealista, dando atenção até para os pelos dos personagens, para fazer uma fantasia. Se você for pensar dessa forma, esses filmes são quase cínicos.

 

CF: O diretor Brad Bird (Os Incríveis e Ratatouille) diz odiar quando se referem à animação enquanto gênero cinematográfico. “É um formato artístico, através do qual pode-se abordar qualquer gênero”, reivindica. Qual sua opinião a respeito? Como julga o tratamento da imprensa e da crítica ao campo das animações?

AA: Também não gosto disso, mesmo porque minhas referencias são de outros campos, não sou um viciado em animação. Tem muitos filmes, como Os Incríveis, que eu comecei a assistir e não consegui terminar, porque não suporto o jeito de animação dos personagens, o tratamento gráfico, acho tudo aquilo meio brega. Gosto dos filmes do Miyazaki, me diverti com Meu Malvado Favorito, mas a minha referência sempre é mais do cinema live-action.

Um filme como O Menino e o Mundo sofre três tipos de preconceito logo de cara: de gênero, por dizerem que animação não é cinema; de público-alvo, já que dizem que o filme não é para adultos, o que é uma bobagem; e de nacionalidade, por ser qualificado como latino. Além do mais, é um filme sem diálogo. Tivemos que ir contra todos esses preconceitos.

 

CF: O cinema americano teve influência sobre o seu trabalho?

AA: Quando estava fazendo o curta-metragem Espantalho eu tinha a intenção de fazer algo semelhante à Disney, à animação clássica, até porque foi isso que eu assisti quando era criança. Que bom que eu enjoei logo disso. Não tenho o menor prazer em ver e nem fazer filmes desse tipo, virou uma coisa muito básica, onde não há espaço para um verdadeiro trabalho formal do autor.

A história da arte passou por tantos momentos até chegar à modernidade, com todos os seus ismos, e parece que é como se o cinema de animação ainda está na Renascença. Podemos romper com isso. Há praticamente toda a história da arte moderna para explorarmos na animação. Por que não temos uma animação com o estilo do Matisse? Por que tudo tem que ter esse realismo, essa luz renascentista? A animação feita hoje é muito comportada e conservadora.

 

CF: Você vive de cinema?

AA: Atualmente sim. O Menino e o Mundo foi patrocinado e eu pude ganhar um salário para trabalhar nele. Também sou o produtor do filme, e a receita gerada, que não é muita, vai me sustentar por no mínimo mais um ano. Ainda assim, eu ilustro livros e faço um trabalho de pintura paralelamente ao de animação.

 

* Colaborou Ivan Oliveira