A abertura da 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes, ocorrida na noite desta sexta (22), homenageou o cineasta ítalo-brasileiro Andrea Tonacci e destacou uma de suas obras fundamentais, o documentário Serras da Desordem, que foi exibido logo após a cerimônia.

Hoje apontado como um dos principais trabalhos do cinema nacional, o filme teve a sua primeira exibição pública justamente em Tiradentes, durante o festival de 2006. O aniversário de dez anos da obra fez com que a organização mudasse o perfil dos homenageados recentes (as atrizes Dira Paes e Simone Spoladore, e o ator Marat Descartes), optando por destacar o artista de 71 anos.

“Acho que essa é uma homenagem muito particular. Vejo muito menos como uma homenagem formal e muito mais como uma possibilidade de encontro, de conversas, de troca, de desmascaramentos, de abrir mão um pouco de certas falas negociadas. Essa tenda (local de exibição dos filmes) todo ano tende a se transformar numa aldeia, e espero que essa aldeia possa talvez se expandir para fora daqui”, declarou no palco o curador Cléber Eduardo.

Acompanhado da mulher, a montadora Cristina Amaral, e de seu filho Daniel, Tonacci foi sucinto após ganhar em mãos o Troféu Barroco. “É muito surpreendente você receber uma homenagem. Quando fazemos os filmes, a gente não constrói conscientemente as consequências do que realiza. A homenagem para mim está sendo uma forma de eu refletir um pouquinho sobre o que andei fazendo. Só posso agradecer às pessoas que estão me dando essa oportunidade”, afirmou.

 

Filme seminal

A exibição de Serras da Desordem no Cine Tenda justificou plenamente a homenagem ocorrida poucos minutos antes. Dez anos depois de seu lançamento, continua atualíssimo o trabalho que traz a história real do índio Carapirú, que viu seus familiares mais próximos serem dizimados e vagou sozinho até encontrar um vilarejo em que foi acolhido pela população local. Posteriormente, o índio foi encontrado por um sertanista que o levou de volta à aldeia em que viviam os remanescentes de sua tribo.

A ocorrência, que ganhou os noticiários da imprensa na época, se transforma em um grande filme devido à radicalidade e à inventividade do cinema de Tonacci. Sem utilizar a voz em off para explicar os fatos, e com pouquíssimos recursos do documentário tradicional, como entrevistas e diálogos entre os personagens – até porque a impossibilidade de comunicação entre índios e brancos é um dos temas retratados -, o cineasta confia na força das imagens como propulsoras de uma narrativa que fala sobre como o desenvolvimentismo econômico, simbolizado pela construção da ferrovia Transamazônica, destruiu física e culturalmente as aldeias indígenas.

A montagem que sugere, e não impõe ideias, a trilha sonora que por vezes surge para comentar de modo irônico as imagens, como na inserção de um samba, e principalmente o modo com que o filme trabalha a encenação e a relação entre o passado e o presente, colocando pessoas comuns para reencenar fatos ocorridos anteriormente, fazem de Serras da Desordem um filme seminal, que influencia a produção brasileira até hoje.

O segundo dia da 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes terá uma mesa de debates que discutirá “Os Espaços Fílmicos do Cineasta Andrea Tonacci”, que contará com a presença do diretor. Entre as exibições, os destaques são as sessões de Garoto, de Júlio Bressane (precedida por Blá-Blá-Blá, de Tonacci); Futuro Junho, de Maria Augusta Ramos; Através da Sombra, de Walter Lima Jr.; e O Diabo Mora Aqui, longa-metragem de horror dirigido por Rodrigo Gasparini e Dante Veschio que terá sessão à 0h40.

Mais informações podem ser obtidas no site oficial do festival.

 

*O repórter viajou a convite da 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes