A programação da 12ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto vem jogando luz a vários casos em que a preservação da memória audiovisual brasileira está atrelada à vontade pessoal de familiares de realizadores. Isso pôde ser verificado na sessão de abertura, com Desarquivando Alice Gonzaga, e também através da exibição do filme de episódios Um é Pouco, Dois é Bom (1970), realizado por Odilon Lopez, um dos primeiros cineastas negros a dirigirem um longa-metragem no Brasil.

Um quadro guardado na casa da filha, Vanessa Lopez, em Porto Alegre, atesta a participação do filme na 2ª Mostra do Cinema Nacional de Gramado, evento realizado em 1971 que precedeu a criação, dois anos mais tarde, do hoje tradicional Festival de Gramado. Também foi em sua residência que Vanessa guardou os arquivos audiovisuais do pai, incluindo os rolos do único longa-metragem de ficção realizado por ele.

Um é Pouco, Dois é Bom havia tido sua última exibição pública há 16 anos, após a morte de Odilon, e provocou ótima repercussão na 12ª CineOP por sua experimentação de linguagem e por algumas temáticas, como a do racismo, retratadas em plena Ditadura Militar.

“O próprio Francis (Vogner dos Reis, curador da CineOP) me disse que o pessoal do Sudeste não conhece o filme; o trabalho ficou muito restrito ao Rio Grande do Sul. A impressão que eu tenho é que as pessoas não entenderam muito esse lado crítico do filme na época”, diz Vanessa.

Odilon Lopez foi repórter e cinegrafista da TV Piratini e também trilhou carreira como ator de rádio, teatro e televisão. Com exceção de “pontas” em filmes da produtora Atlântida, seu único personagem no cinema foi em “Vida Nova Por Acaso”, segundo episódio de Um é Pouco, Dois é Bom. Ali ele interpreta Crioulo, um dos protagonistas, que realiza pequenos roubos nas ruas de Porto Alegre ao lado do parceiro Magrão. Em “Com Um Pouquinho de Sorte”, primeiro episódio do filme, Jorge, um motorista de ônibus, e Maria, uma comerciária, se casam e vão residir em um apartamento popular, mas a euforia inicial se esvai quando ambos perdem o emprego e ela está prestes a ter um bebê.

Os dois episódios são estruturalmente parecidos, com inícios que apostam em uma crônica de costumes mais convencional e bem-humorada e com partes finais em que há guinadas formais das mais interessantes.

No primeiro episódio, isso se dá no momento em que Jorge decide resistir ao despejo. A filmagem em preto e branco e os ângulos oblíquos dão conta da instabilidade emocional do personagem, e há um paralelo entre sua negativa a abandonar a residência e as dificuldades da mulher em dar à luz. O plano final, com o recém-nascido de ponta cabeça, é muito impactante, principalmente quando contraposto ao idilismo sugerido pelas cenas iniciais.

No segundo episódio, a dupla de criminosos sai da cadeia e volta a cometer pequenos delitos. A situação muda quando uma mulher rica se aproxima de Crioulo, atraída pela semelhança dele com um antigo conhecido. A relação amorosa entre eles tangencia o conto de fadas da ascensão socioeconômica, mas tudo muda quando o personagem é reconhecido como batedor de carteiras. Tudo mesmo, inclusive a forma do filme, que passa a ter um teor psicodélico com direito a uma diabinha que lembra alguns filmes de Georges Méliès e a cenas na praia que remetem ao universo felliniano.

Houve também quem apontasse semelhanças de Um é Pouco, Dois é Bom com o filme norte-americano Corra!, lançado há pouco tempo nos cinemas brasileiros. Nos dois trabalhos estão presentes a obsessão voyeurística e muitas vezes mal-intencionada de pessoas brancas por negros e uma tentativa posterior de restabelecer o status quo. “É incrível que, 47 anos depois, o filme renda essas comparações. Isso mostra a originalidade e a atualidade do trabalho”, comenta Vanessa Lopez.

Depois da exibição em Ouro Preto, os rolos do filme que ainda estavam sendo mantidos na casa de Vanessa devem ganhar finalmente uma preservação apropriada através da Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre, possibilitando que o trabalho de Odilon Lopez consiga ser descoberto por outros públicos.

 

*O repórter viajou a convite da organização do festival