Com a indagação “Quem conta a História? Olhares e Identidades no Cinema Brasileiro”, a 12ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, que acontece de 22 a 26 de junho, reflete uma discussão bem contemporânea. A dupla de curadores Francis Vogner dos Reis e Lila Foster chegou a essa temática histórica a partir da constatação de que historicamente existe a preocupação de se olhar para o “outro lado”.

“Sempre se disse que se filmava ‘o outro’, mas o ‘outro’ de quem? Quem elege esse outro? Se há um ‘outro’, há um ‘eu’. Tradicionalmente esse ‘eu’ são cineastas homens, intelectuais, de classes mais estabelecidas, diferente daqueles que eles filmavam. São eles que detinham o discurso sobre a realidade e as narrativas sobre a História”, apontam.

Um dos primeiros trabalhos a se dedicarem às diferenças entre quem olha e quem é olhado no cinema brasileiro é o livro Cineastas e Imagens do Povo, de Jean-Claude Bernardet, publicado em 1985. Uma pergunta que atravessava o texto de Bernardet e diversos outros estudos posteriores é: De quem é o discurso sobre a realidade?. “A partir disso, completamos: de quem é a narrativa sobre a História? Como grupos historicamente fragilizados disputaram o imaginário sobre suas próprias culturas e realidade?”, dizem os curadores.

Em consonância com a temática “Quem conta a História?”, uma das homenageadas desta edição será a montadora e produtora Cristina Amaral. Sua vida e trajetória serão celebradas na noite na cerimônia de abertura, marcada para o Cine Vila Rica, e em debates e filmes a serem apresentados durante toda a programação.

Parceira de vida e de trabalho de nomes como Carlos Reichenbach e Andrea Tonacci (de quem foi companheira por anos), Cristina é considerada uma das mais importantes profissionais da montagem no cinema brasileiro nas últimas quatro décadas. Entre vários trabalhos, ela montou títulos como Alma Corsária (Carlos Reichenbach, 1993), Serras da Desordem (Andrea Tonacci, 2006), O Homem que não Dormia (Edgard Navarro, 2012) e Garotas do ABC (Carlos Reichenbach, 2004).

“Pensamos em homenagear alguém num tipo de função que não tinha sido celebrado ainda na CineOP e com grande importância na realização de um filme, deslocando a atenção de diretores e atores para um trabalho muitas vezes deixado à margem”, explica o curador Francis Vogner dos Reis. “A montagem é um elemento essencial porque ajuda a contar histórias e a organizar e dar sentido às imagens. Em boa parte dos filmes que vemos, inclusive trabalhos feitos a partir de arquivos, que têm presença forte na Mostra, o montador é quem, na parceria com a direção, vai lidar diretamente com aquelas imagens”.

Toda a programação é oferecida gratuitamente ao público e pode ser consultada no site oficial do evento.